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15-maio-2026 Ano 2

Entre telas: o que a hiper estimulação em desenhos animados infantis reflete sobre a infância?

Como essa forma de entretenimento passou a impactar o neurodesenvolvimento das crianças? Foto de Samu Lopez na Unsplash Os desenhos…
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Como essa forma de entretenimento passou a impactar o neurodesenvolvimento das crianças?
Foto de Samu Lopez na Unsplash

Os desenhos infantis são tradicionalmente conhecidos como uma forma de entretenimento para as crianças. Seja no celular, TV ou tablet, as telas fazem, cada vez mais, parte da vida dos pequenos. No entanto, o que começou como um passatempo, passou a afetar diretamente o neurodesenvolvimento infantil, além de seu humor e sono. Hoje, a infância é impactada por desenhos hiper estimulantes.

“É assustadora a mudança de comportamento deles. Fazem mais birra, não conseguem verbalizar as emoções e ficam dependentes como um vício mesmo.”

Caroline Dariolli, mãe de um menino de 4 e uma menina de 6.

Essas animações provocam um fenômeno chamado hiper estimulação sensorial causado, sobretudo, pela sobrecarga neural. Através de cores saturadas, cortes a cada poucos segundos, trilhas sonoras em volume alto, personagens que falam em ritmo acelerado formam um combo de informações que prejudicam o processo de análise e síntese do cérebro infantil.

Um cérebro em formação que assimila o mundo na velocidade 2x.

Foto de Zack Wang na Unsplash

Para entender o que esses desenhos provocam, é preciso voltar à biologia básica. Segundo a organização norte-americana “First Things First”, 90% do crescimento cerebral acontece até os 5 anos de idade e, é durante essa janela, que cerca de um milhão de novas conexões neurais por segundo ocorrem. Cada estímulo que a criança recebe, seja uma nova cor, som, um rosto, uma textura, molda uma nova rede de conexões neurais.

Em entrevista à Agenzia, a Dr. Ana Cláudia Tomaz – especializada em neurodesenvolvimento, explicou que a exposição precoce às telas submete o cérebro infantil a um volume de informações incompatível com o mundo real, uma vez que a criança não consegue transpor um entendimento de mundo do bidimensional, como apresentado nas telas, para o tridimensional – a realidade.

Outros impactos dos desenhos hiper estimulantes na infância estão na desregulação da dopamina no cérebro infantil. O som, as cenas rápidas e, sobretudo, as cores geram o que especialistas chamam de “dopamina barata”, neurotransmissor relacionado ao prazer e alegria. Dessa forma, a criança associa o desenho a uma fonte desses sentimentos, culminando no vício. Esse processo é inconsciente, sendo uma reação do cérebro que quer voltar de forma mais rápida o possível a esse estado de contentamento provocado pelas animações. 

A criança torna-se, assim, intolerante à realidade fora do desenho e especialmente, ao tédio. Tal efeito, atrapalha processos como a alfabetização e outras atividades processuais que exigem paciência. A psicopedagoga, Gabriela Santos aponta para os impactos diretos no comportamento infantil:

“As crianças de hoje que são muito imediatistas. Tem que ser na minha hora, no meu jeito, do jeito que eu quero. Não sabem lidar com a frustração e, assim, com o ‘não'”

Gabriela Santos, psicopedagoga.

A longo prazo, o excesso de telas afeta não só a visão, mas também a qualidade do sono. O diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, Ian Curi, alerta sobre os danos causados pela luz azul. No relatório, Curi aponta para o aumento da miopia precoce em menores de cinco anos, para além da inibição da melatonina, prejudicando a qualidade do sono dos pequenos.

Outro ponto de atenção é a saúde mental infantil. Uma meta-análise publicada na JAMA Psychiatry associa o aumento do tempo de tela ao aumento de índices de ansiedade e depressão em crianças.

“A hiper estimulação não é natural, ela é coletiva”

Foto de zhenzhong liu na Unsplash

Entretanto, colocar os desenhos como “vilões” é equivocado. Eles são, antes de tudo, um sintoma. É o que defende Michelle Prazeres, fundadora do movimento Desacelera e pesquisadora da aceleração social.

Os desenhos animados tem uma função social muito importante na formação infantil nos anos iniciais quando escolhidos de forma adequada. Assim, essa forma de entretenimento não é uma anomalia ou a raiz desse problema: são apenas o espelho de uma sociedade acelerada.

 “Esses desenhos estão nesse mundo, então eles falam a linguagem desse mundo, e de uma certa forma espelham esse mundo. Mas, de outro lado, eles também cumprem uma função social. As crianças estão cada vez mais cedo tendo síndromes e problemas relacionados a uma ansiedade que está sendo apresentada para elas desde muito cedo.”

Michelle Prazeres

A tela como rede de apoio: o lado que o discurso fácil ignora

Foto de Patricia Prudente na Unsplash

Entretanto, o debate sobre a influência dos pais no estímulo do uso de telas costuma deslizar para uma ideia de culpabilização, geralmente das mães.  De acordo com a revista Delos, surgimento de miopia precoce em menores de cinco anos, somado aos danos causados pela luz azul, que inibe a melatonina e prejudica a qualidade do sono.

Os números corroboram. Dados do Projeto PIPAS, citados no Guia Sobre Usos de Dispositivos Digitais do Governo Federal, revelam revelam que em 33,2% das residências brasileiras com crianças de até cinco anos, o uso de dispositivos supera duas horas diárias. No mesmo grupo, 24% das casas não possuem sequer um livro. Apesar de bem-intencionado, o discurso que estimula os pais a fazerem atividades offline com seus filhos pode refletir uma perspectiva muito classista. Não é ideal, mas para muitos, é a única alternativa.

Para Michelle, embora esses desenhos cumpram uma função social e espelhem o mundo contemporâneo, eles acabam por introduzir precocemente nas crianças síndromes e problemas de ansiedade. 

A tela como reflexo da desigualdade

Além disso, a tecnologia tem atuado como um novo divisor social, no qual o tempo offline é um privilégio compartilhado por poucos. Enquanto famílias com maior poder aquisitivo investem em atividades extracurriculares fora da tela, outras enfrentam rotinas exaustivas para conseguir sustentar a casa. A tela, nesses casos, torna-se um refúgio necessário para garantir entretenimento e segurança doméstica aos filhos.

Foto de charlesdeluvio na Unsplash

Dessa forma, a desigualdade se escancara em quem tem tempo de lazer e condição material para regular esse uso. Essa vulnerabilidade expõe crianças a estímulos dopaminérgicos e maior risco de atrasos no desenvolvimento cognitivo. Para especialistas, equilibrar esse cenário e promover a saúde das crianças exige apoio de políticas públicas, e paralelamente, construção espaço de diálogos e de confiança dos pais com os filhos garante melhor regulamentação e consciência do que eles assistem.

O que esperar para o futuro?

O consumo desses conteúdos hiper estimulantes faz com que o cérebro dessas crianças tenha dificuldade em processar atividades mais lentas. Seu futuro pode ser marcado por uma baixa tolerância ao esforço mental e uma busca incessante por gratificação instantânea, tornando o aprendizado e a paciência desafios quase impossíveis. Além disso, é possível que esses adultos sejam menos tolerantes a frustrações. Proteger a infância dessa hiper estimulação não é apenas uma escolha de lazer, mas também é um investimento em saúde mental e na capacidade cognitiva de uma geração que precisará de foco para conviver na sociedade atual.

Por: Julia Pimentel, Maria Eduarda Dias, Mariana Dariolli, Samantha Couto, Sophia Petercem, Yasmim Ribeiro.

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Eduardo Nunomura

Jornalista e professor de Jornalismo na Cásper Líbero, à frente do projeto Agenzia, Eduardo Nunomura orienta, semestralmente, mais de 300 estudantes na produção de conteúdo multimídia. Especialista em estratégias digitais e narrativas convergentes, é daqueles que ainda crê no jornalismo. <a href="https://www.linkedin.com/in/eduardonunomura/" target="_blank" rel="noopener"><b>Minha trajetória no LinkedIn</b></a>