O mundo atual é composto por diversos tipos de interações sociais, que ultrapassam a barreira física e se encontram nos meios digitais. Com isso, foi criado um novo tipo de “julgamento social”, a cultura do cancelamento, que se dá por um comportamento em massa nas redes, que tem como objetivo aplicar uma espécie de “justiça coletiva” por meio de punição online. Essa cultura começou a ganhar força em 2019, voltada para delatar a cultura de assédio sexual que acontecia em Hollywood. Havia, naquele momento, uma forte ligação a pautas sociais, denunciando coisas que não seriam ouvidas nem investigadas se não existisse esse novo senso de justiça digital.
Conforme os anos se passaram, muitas figuras públicas, como Luísa Sonza, Felipe Neto e Viih Tube, vieram a ser canceladas, e com a mesma velocidade que se cancela alguém, também perdoa. A cultura do descancelamento vem como meio de contradizer e “desculpar” a pessoa que antes era atacada. Esse fenômeno começa com uma estratégia de marketing pessoal do famoso, com vídeos emotivos e textos pedindo desculpas. Isso tenta ajudar na reconstrução da imagem e consegue transformar a raiva em empatia, e muitas vezes o público concede o perdão ao que pouco tempo atrás era imperdoável.

O mecanismo por trás do descancelamento
A concretização do descancelamento ocorre por meio de um processo de um “rebranding” (renovação estratégica da identidade de uma marca) pessoal das figuras públicas, muitas vezes utilizando da vulnerabilidade da situação para tomar conta da narrativa e invertê-lá. A estratégia de marketing mais comum nesses casos começa com o falso arrependimento, o indivíduo usa de cenários e vestimentas consideradas leves, ambientes tranquilos e calmos para gravar vídeos de desculpas, voz calma e fala devagar, o choro também é muito bem vindo.
Em seguida vem o suposto sofrimento, a exposição dos efeitos emocionais que tal evento causou ao cancelado. A celebridade de repente vira uma ativista da saúde mental, faz campanhas, se posiciona mais, é uma nova pessoa. Prega a gentileza, faz posts motivacionais e refere-se a si mesma como um ser de luz.
Depois de admitir o erro, surgem motivos para tal erro, muitas vezes pessoais, com o intuito de recuperar a empatia do público. Então a poeira finalmente abaixa, e é aí que a nova narrativa do “coitado incompreendido” se firma. Agora o famoso é batalhador, uma história de superação. Ele erra e dá a volta por cima, é forte pois aturou o cancelamento e os vilões são aqueles que o cancelaram.
O objetivo não é que as pessoas esqueçam o que aconteceu, mas que elas parem de se importar com aquilo porque a versão atual da marca ou pessoa é mais interessante.
Mas e o público, ele compra essa ideia? Segundo Gabriella Cima, diretora de marketing da Clínica Dediq e Dediq+ Família, na maioria das vezes, sim. “Claro que ninguém esquece, os prints são eternos, mas a memória da internet é curta. Na maioria das vezes, é porque surgiu um vilão pior. A internet tem uma memória curta e uma sede de justiça muito grande, mas ela cansa rápido. O descancelamento acontece quando o erro antigo parece menor perto do caos atual”, afirma.
Uma desculpa vale mais que o erro?
Karol Conká e Kanye West se tornaram exemplos emblemáticos de cancelamento, por motivos distintos. Antes adorados, depois odiados, e em seguida idolatrados como “incompreendidos” e “gênios”, os dois artistas protagonizaram falas e ações antiéticas e passaram pelo processo de descancelamento.
“Eu amo que a Karol Conká deu a volta por cima do cancelamento e se tornou incancelável”, afirma, um dos comentários do usuário @eusouabart na plataforma X.
Depois de sofrer uma onda de cancelamento massiva, Karol Conká precisava adotar uma estratégia com urgência. Um documentário com o objetivo de reconstruir a imagem da artista foi feito, um afastamento (detox) digital foi necessário e projetos que abordavam temas de vulnerabilidade e resistência foram lançados. Esse processo ajudou o público a ver uma “nova Karol”, que se mostra arrependida e mais humanizada.
Enquanto Karol optou por um rebranding com mediação e controle de narrativa, Kanye West se sustenta no engajamento de uma base fiel de fãs para manter sua relevância, mesmo em meio a polêmicas recorrentes. Ainda que pressionado por posicionamentos públicos, o artista permanece em evidência sem adotar uma estratégia clara de reposicionamento.
“Kanye West é, provavelmente, o artista mais influente do século. Lenda viva “, declara @urboyframes um usuário na plataforma X.
A comparação mostra que o descancelamento depende menos do erro e mais da condução da imagem após a crise, influenciando gradualmente a percepção do público.
As perspectivas acerca do descancelamento
Com a memória da internet cada vez mais curta, o “descancelamento” virou quase rotina: pessoas que são canceladas hoje e perdoadas amanhã. Mas fica a pergunta: os cancelados podem realmente mudar?
“Depende do motivo do cancelamento. Em uma situação em que a fala foi tirada de contexto, o que acontece muito na internet, acho que as pessoas podem ser perdoadas.”, alega Maria Eduarda Alvarenga, estudante de jornalismo. “Desde de que não esteja cometendo um crime, é perdoável, mas se for um crime, deve ser punido. Até porque na internet as pessoas se escondem atrás de máscaras” , argumenta Marco Aurélio, policial militar.
Nem todo erro tem o mesmo peso, e isso muda a forma como o público reage. Descancelar alguém pode ter um lado positivo, afinal abre espaço para refletir, reconhecer o erro e tentar agir diferente. Também existem situações em que tudo começa com uma interpretação equivocada ou até uma fake news. Nesses casos, o cancelamento pode atingir alguém que nem errou, e o descancelamento chega para corrigir uma injustiça. Por outro lado, nem tudo pode ser simplesmente esquecido. Quando o caso envolve violação de direitos humanos, não é erro, é crime. E isso precisa ser tratado com seriedade, inclusive na justiça.
À sociedade cabe apenas não normalizar esse tipo de atitude, para não encorajar comportamentos intolerantes. No fim, a cultura do descancelamento mostra como a memória coletiva anda rápida e seletiva. Isso pode ser útil ou perigoso. Por isso, se informar bem e checar fatos é essencial antes de apoiar ou rejeitar alguém. Afinal, um clique pode corrigir uma injustiça ou ampliá-la.
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