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15-maio-2026 Ano 2

Cultura do bem-estar e Gen Z: Consequências da valorização do estilo de vida “wellness” nas redes

Entenda a obsessão da Geração Z por saúde e pela cultura "wellness" vendida nas redes sociais.
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O cenário dos influenciadores digitais que compartilham rotinas hiper disciplinadas e muito produtivas vem crescendo cada vez mais nos últimos anos. Tal fenômeno inspira jovens, especialmente da Geração Z, a reproduzir o estilo de vida conhecido como wellness

De acordo com o Datafolha, em pesquisa realizada em 2024, 61% dos brasileiros entre 16 e 24 anos praticam atividades físicas no dia a dia, em contraponto com os 47% da população que têm de 45 a 59 anos. 

A Geração Z consome em grande quantidade o movimento do bem-estar e do autocuidado nas plataformas digitais. A constante exposição a esse tipo de conteúdo pode afetar as pessoas tanto positivamente, incentivando-as, quanto negativamente. Conforme afirma a psicóloga Ana Laura Taboga, mestranda da USP, o acesso a esse conteúdo pode gerar “frustração, comparação e insatisfação com o próprio corpo e com a própria vida”. 


Relação influencers e audiência

A internet possui um papel cada vez mais relevante na vida dos jovens, especialmente com o aparecimento dos influencers digitais. Em temas como saúde e autocuidado, boa parte das referências não são mais apenas médicos e estudiosos, e sim os produtores de conteúdo wellness.

Luiza Aymar, uma estudante de nutrição, compartilha sua rotina, seus treinos e sua alimentação no Instagram. A jovem de 18 anos expressa que acha incrível ver pessoas que começaram a fazer algo bom para saúde por sua influência.

Foto mostrando a influenciadora praticando o estilo wellness
Foto tirada do Instagram @luaymar__

Como parte da Gen Z, Luiza diz que as mídias sociais têm um papel fundamental em propagar esse estilo de vida. “A gente tem sim que divulgar esse tipo de coisa, é importante. Às vezes alguém vê e se espelha, e é muito bom isso”, comenta ela.

Entretanto, essa relação também pode gerar consequências negativas. Muitos influenciadores criam uma imagem irreal e idealizada, com rotinas impossíveis de reproduzir na vida real. Segundo a psicóloga Ana Laura, nós vamos perdendo a capacidade de entender o que é real e que não é, porque “a quantidade de coisas que chegam até nós é tão intensa que vai ficando difícil de absorver”. 

É muito complexo regulamentar a profissão de influenciadores digitais e tentar limitar o que as pessoas falam. Logo, como resposta, a psicóloga sugere melhorar a recepção e compreensão desses conteúdos, diminuir o tempo de tela e parar de seguir pessoas com padrões irreais.


Mercado wellness

O Global Wellness Institute (GWI) define bem-estar como a busca ativa por atividades, escolhas e estilos de vida. O mercado wellness engloba produtos, serviços e práticas voltados à promoção da saúde envolvendo desempenho físico e mental.  Diferente do setor da saúde tradicional, o wellness visa o autocuidado e o bem-estar.

O mercado wellness vem crescendo de forma constante e já figura entre os maiores setores da economia mundial. Ainda segundo dados do GWI, ele movimenta US$5,6 trilhões globalmente.

A geração Z e os millennials se destacam entre os consumidores, e a saúde mental ganha mais destaque. Com base nos dados da SEBRAE, os jovens convivem com ansiedade e burnout, e procuram soluções focadas no equilíbrio emocional e em uma vida mais fitness. 

Em entrevista feita pelo Valor Econômico, Thais Figueredo, farmacêutica e responsável técnica da Quantum Nutrition, afirma que “essas gerações passaram a enxergar a saúde de forma muito mais ampla e integrada. Ao contrário das gerações anteriores, que normalmente associavam saúde apenas à ausência de doenças ou à necessidade de tratamento. A geração Z e os millennials entendem a saúde como um estado contínuo de equilíbrio físico, mental e emocional”.


Cuidar da saúde é o novo luxo

A desigualdade econômica e social no Brasil também afeta a relação da população com cuidado e bem-estar. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em parceria com a Question Pro, 87% dos brasileiros reconhecem a importância das atividades de bem-estar. Porém, 33% têm reais condições de investir em tais atividades. 

A respeito do custo de se buscar um estilo de vida wellness, a produtora de conteúdo Luiza afirma que  “é caro em dois sentidos: no sentido literal, de realmente exigir um padrão maior na questão aquisitiva, e no quesito tempo”. 

O alto preço de academias, de treinos com personal trainer e de comidas mais saudáveis muitas vezes tornam esse estilo de vida inacessível para camadas sociais baixas. Mas o custo não é o único problema: os momentos de descanso são cada vez menores na vida da população. Na pesquisa de 2024 do Datafolha, 49% daqueles que não praticam atividades físicas disseram que o principal motivo é a falta de tempo.

Aymar complementa que não adianta pensar somente na própria realidade e esquecer da realidade de outros. Muitos pegam horas de transporte público para trabalhar e ainda cuidam de filhos e da casa. Então não há como imaginar que elas vão poder acordar às 5h00 da manhã para correr, por exemplo.

Essa consciência é necessária para que não propague-se discursos elitistas e seja evitada a ideia de que qualquer um consegue seguir a mesma rotina, o que não se prova verídico para muitos brasileiros. Se essa hiperprodutividade for compartilhada sem entendimento da sociedade, cria-se uma imagem idealizada e irreal que não conversa com parte da audiência.


Quando o exercício físico deixa de ser cuidado e passa a ser obsessão

Apesar de o cuidado com a saúde ser algo bom, Luiza afirma que quando a atividade física passou a ser excessiva em sua vida, deixou de ser saudável e passou a machucar o seu corpo, sendo diagnosticada com anorexia. 

“Eu sempre tive uma obsessão muito grande de querer emagrecer muito. O meu sonho era ver a minha barriga definida, e por mais que eu já tivesse emagrecido, eu não ainda sentia que estava magra o suficiente”, relata a influenciadora.

A internet, apesar de ter o seu lado bom de estimular o cuidado, por outro lado, pode propagar ilusões. Isso faz com que muitos pensem que a realidade dos influenciadores está perfeita, quando na verdade está sendo prejudicial. Acerca dessa realidade, Aymar relatou:

“Eu postava e todo mundo achava maravilhoso, mas para vocês verem como a internet engana, parecia que eu era super saudável, mas eu estava colocando o meu corpo em estado de emergência”.

Como Luiza, muitos jovens enfrentam essa realidade. Entretanto, Ana Laura explica que a pressão estética é ainda maior para as mulheres, uma vez que a indústria da beleza as pressiona a se preocupar com a aparência. 

Diante disso, essa busca se torna um problema quando ela ultrapassa a linha do flexível e se transforma em uma auto-cobrança excessiva. Para que a busca pelo autocuidado não se torne obsessão, segundo a psicóloga, é necessário adotar uma postura de flexibilidade. Assim, ela recomenda equilíbrio, sem procurar uma rigidez extrema, mas reconhecendo a importância de uma vida saudável. 


Agenzia

Escrito por

Malu Braga

, Carolina Tersigni, Giovana Verotti e Júlia Rogerio.

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UTILIZAÇÃO DE IA
Autoria Humana Exclusiva

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

Eduardo Nunomura

Jornalista e professor de Jornalismo na Cásper Líbero, à frente do projeto Agenzia, Eduardo Nunomura orienta, semestralmente, mais de 300 estudantes na produção de conteúdo multimídia. Especialista em estratégias digitais e narrativas convergentes, é daqueles que ainda crê no jornalismo. <a href="https://www.linkedin.com/in/eduardonunomura/" target="_blank" rel="noopener"><b>Minha trajetória no LinkedIn</b></a>

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