“Então eu percebi que isto só acabou quando eu virei a Wanna campeã, daí tudo mudou. Porque antes eu era a Wanna ‘debiloide’, a Wanna ‘retardada’, Wanna ‘doida’”, desabafa a tricampeã mundial de arremesso de peso paraolímpico, Wanna Brito em entrevista ao portal Agenzia. O Brasil é o 22º país com mais medalhas nas Paralimpíadas (373) tendo, inclusive, quase o dobro de medalhas em relação aos Jogos Olímpicos (171). Porém, como é ser um atleta paraolímpico no Brasil?
A amapaense de 29 anos começou no esporte pela natação, apenas como hobby. Até que foi apresentada ao atletismo pelo professor Marlon Gomes, com quem treinou durante seis meses até sua primeira competição, em Recife. O primeiro ouro em sua carreira foi conquistado no arremesso de peso. “Durante o meu começo eu treinava no estádio estadual da minha cidade, mas acabaram meio que expulsando a gente com o argumento de que o espaço era apenas para futebol, foi ali que a gente conseguiu o terreno baldio do IFAP que era bem perto da minha casa”. Quebrando barreiras, Wanna se consagrou campeã mundial pela primeira vez em 2024 no Marrocos. Porém, uma baixa porcentagem de atletas com deficiência tem o apoio que Wanna recebeu durante sua trajetória. Muitos atletas ainda sofrem de invisibilização, falta de incentivo e acessibilidade e preconceito.

Os esforços estatais ainda são recentes em relação às competições. De acordo com o Ministério do Esporte, no ciclo entre 2012 e 2015 o investimento em bolsas paralímpicas era de 11 milhões de reais. No ciclo de 2016 o investimento ultrapassou 99 milhões de reais, segundo o Ministério do esporte. Com os bons resultados conquistados durante a competição, o interesse do público cresceu, e junto a ele, o respeito e visibilidade para pessoas com deficiência também cresceu. Temas que antes eram pouco discutidos ganharam palco, como casos de capacitismo, que são atos de discriminação e preconceito direcionados a pessoas com deficiência (PcD).
Atos de violência capacitista estão enraizados em diversas falas e expressões da nossa sociedade. O popular uso do termo “paratleta” ao redor do mundo, é um exemplo de capacitismo enraizado. A palavra carrega uma segregação entre atletas com deficiências e atletas que não tem. O prefixo “para-” vem do grego, tendo sentido de “junto”; ao lado de; ao longo de; para além de. O termo foi adotado pelo Comitê Olímpico em 1960 na primeira realização das Paralimpíadas, pois é uma competição que ocorre junto aos Jogos Olímpicos. Não faz sentido a existência de termos como “paraprofessor” ou “parajornalista”. Por que existiria “paratleta”? Essa e outras expressões e ditados populares carregados de preconceito são descritos em Capacitista em desconstrução, guia idealizado pela atleta de canoagem paralímpica, Nayara Falcão, em parceria com o Ministério do Esporte e o Governo Federal.
A falta de incentivo aos atletas
Maciel de Souza Santos nasceu em Cape Uzi, no interior do Ceará, em 1985. Maciel tem paralisia cerebral, o que afeta suas capacidades motoras e a fala. Aos 2 anos sua família mudou-se para São Miguel Paulista, em São Paulo, em busca de uma melhor qualidade de vida. Aos 11 anos, ele conheceu a bocha, esporte recém-chegado no Brasil. Em entrevista à Agenzia, o atleta revela as dificuldades no início da carreira, “O começo é difícil, você não tem cadeira de roda, não tem acessibilidade, não tem nada. O meu primeiro contato com cadeira de rodas foi jogando bocha porque, até então, eu nem sabia o que era cadeira de rodas”. Em março de 2026, ele completou 30 anos de bocha paralímpica, sendo 24 anos na seleção Brasileira. Maciel tem seu nome marcado na história do esporte paralímpico brasileiro, sendo campeão em Londres 2012, medalhista de prata nos pares em 2016 e bronze em Tóquio 2020. Além disso, foi campeão mundial no individual na Copa do Mundo de bocha, realizada no Rio de Janeiro em 2022.
Maciel fala que a bola de bocha que ele utilizava nos treinos era feita de lixo, seu pai que era pedreiro,pegava os lixos da construção civil, enrolava e entregava a seu filho para a realização do treino. Essa é a realidade de milhões de pessoas com deficiência que desejam se tornar atletas de sucesso, não possuem apoio e mesmo assim continuam em busca da realização de seus objetivos.

O país tem dado cada vez mais atenção às competições para que os bons resultados das Paralímpiadas de Paris 2024 sejam atingidos também nos Jogos de Los Angeles 2028. O governo fechou um patrocínio de 160 milhões de reais, garantindo suporte e estrutura para que cada vez mais atletas consigam perseguir seus sonhos. No papel isso é uma coisa maravilhosa, mas será que esse plano sai do papel para todos?
O peso de almejar o topo
Rotinas de treino exaustivas, longas viagens e pouco tempo com a família. Mas para aqueles que estão lutando para conquistar o seu lugar, encontram em suas mentes um dos adversários mais complicados. “Eu estava muito confiante por ser a favorita, e já estava fazendo planos para o dinheiro, mesmo antes de sequer ter ganhado e quando eu perdi a primeira prova fiquei desesperada”, revela Wanna, em entrevista à Agenzia.

Wanna também conta sobre como durante os Jogos de Paris 2024 ela encontrou no assobio de seu pai um porto-seguro, focando apenas no som familiar e lembrando daqueles que sempre a apoiaram. Porém o estado psicológico de um atleta é, muitas vezes, mais decisivo do que a parte física, mas ainda é uma discussão recente. Para aqueles que lutaram a vida toda para serem reconhecidos pelo que são, essa luta fica muito maior. A pressão de sempre ter que dar 150% de si para conseguir se manter no topo. Afinal, apenas aqueles que estão entre os melhores dos melhores conseguem sobreviver do esporte por meio do programa do governo criado apenas em 2004, o Bolsa Atleta.
É possível se manter apenas com o esporte?
Cássio Reis, nasceu em 1990 na Bahia em Ituberá. Aos 2 anos, passou por uma cirurgia de catarata, aos 4, sofreu um acidente na escola ao bater o olho na quina de uma mesa, o que resultou na perda da visão do olho esquerdo. Em Salvador, conheceu o Instituto de Cegos da Bahia, onde teve a oportunidade de conhecer e praticar futebol e muitos outros esportes. Na adolescência, passou a perder gradativamente a visão do olho direito. Aos 20, ele começou a praticar futebol de cegos e se tornou um dos maiores campeões em sua modalidade, conquistando três medalhas de ouro em jogos paralímpicos e o tricampeonato mundial de futebol de Cegos.
Em entrevista à Agenzia, o atleta revela a realidade financeira dos atletas com deficiência no Brasil, “A gente ao longo desses resultados bacanas, de conquistas, vem caminhando. Lá atrás, em 2004, não existia sequer incentivo. Então os atletas vinham jogar apenas por amor, hoje temos incentivo, mas ainda não é o ideal”.
A bolsa atleta abrange um total de 10.885 atletas, desde categorias de base até medalhistas olímpicos com valores que podem chegar até 16 mil reais por mês. O valor, que parece um sonho, dá a chance de praticar o esporte que gosta e ainda ser bem remunerado.
Mas esse sonho é algo que contempla apenas um seleto grupo. No total, 500 atletas figuram dentro da maior categoria de bolsa, o Atleta Pódio. E desses apenas 327 ganham mais de 10 mil reais, sendo 255 deles paralímpicos.
A esmagadora maioria dos atletas figura dentro da bolsa Atleta Nacional (7058), cujo valor é de 1 mil reais. Muitos atletas necessitam de outros meios para conseguirem sobreviver, seja com auxílio de patrocinadores ou até mesmo, com outros empregos.
“Hoje, um atleta de modalidade coletiva que tem família, não consegue fazer um pé de meia. Ele não consegue guardar o suficiente para viver após o encerramento de sua carreira” relata o medalhista paralímpico de futebol de cego, Cássio Reis em entrevista ao portal Agenzia.

Os esportes paralímpicos vem quebrando cada vez mais barreiras. É possível exemplificar isso na edição de Paris 2024, quando o grupo Globo registrou um aumento de 199% de sua audiência em relação às Paralimpíadas de Tóquio 2020, realizada em 2021. Mas a emissora carioca transmite apenas uma parte pequena das competições.
Em Paris, o Brasil registrou 89 medalhas, 17 a mais do que o recorde anterior, 72 medalhas nas Paralimpíadas de 2016 e 2020, figurando dentro dos 5 primeiros países no quadro de medalhas, e dentro os 4 com mais medalhas.

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.