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24-maio-2026 Ano 2

Por que os casos de TEA estão crescendo no Brasil?

Você conhece alguém que está no espectro autista? A resposta para essa pergunta provavelmente é sim, mesmo que você não…
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Você conhece alguém que está no espectro autista? A resposta para essa pergunta provavelmente é sim, mesmo que você não saiba.

De acordo com dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 1,2% da população brasileira possui diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), o equivalente a cerca de 2,4 milhões de pessoas.

Embora o número possa parecer pequeno à primeira vista, dados e especialistas destacam o crescimento acelerado dos diagnósticos nas últimas décadas. Segundo dados do Centers for Disease Control and Prevention, nos anos 2000 havia aproximadamente um diagnóstico de autismo para cada 150 crianças. Já em 2020, a proporção passou para uma em cada 36.

Diante desse cenário, a médica Flavia Diaz, especialista em desenvolvimento infantil e transtornos do neurodesenvolvimento explica como os primeiros sinais podem surgir ainda nos primeiros anos de vida e analisou os motivos que contribuíram para o crescimento dos diagnósticos de TEA.

Segundo ela, o aumento expressivo nos casos registrados está diretamente relacionado à evolução dos métodos diagnósticos e à ampliação do conhecimento sobre o transtorno.

Além disso, outro fator importante apontado pela especialista é a inclusão das mulheres nos diagnósticos. Durante décadas, meninas e mulheres permaneceram invisibilizadas por aprenderem, desde cedo, a mascarar características do espectro, dificultando a identificação do transtorno. Atualmente, mais mulheres têm recebido o diagnóstico em diferentes fases da vida.

Renata Ferreira, diagnosticada com autismo na vida adulta, relatou dificuldades relacionadas ao convívio social, à ansiedade e à sobrecarga sensorial. “Por fora, o sorriso. Por dentro, o cansaço e uma batalha constante”, escreveu em um relato publicado nas redes sociais. Após receber o diagnóstico de TEA, ela afirmou que passou a compreender melhor seus limites, gatilhos e necessidades.

Falta de acesso ainda dificulta diagnósticos

Apesar do aumento nos registros, especialistas alertam que os números ainda podem estar abaixo da realidade. Isso porque a dificuldade de acesso ao atendimento especializado e a dependência da rede pública dificultam o diagnóstico para famílias de baixa renda, ampliando desigualdades no acesso à saúde.

Essas diferenças sociais também aparecem no tratamento. Segundo a pesquisa Mapa Autismo Brasil (MAB), apenas 15,5% das pessoas entrevistadas realizam acompanhamento psicológico pela rede pública, enquanto mais de 60% utilizam convênios médicos ou atendimento particular.

Além de especialista na área, Flavia Diaz também faz parte do espectro autista. Ao relatar como descobriu sua condição, a médica contou que percebeu questões no desenvolvimento da filha e, por conhecer o transtorno e saber da alta hereditariedade, buscou ajuda profissional esperando um diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). No entanto, foi surpreendida pelo diagnóstico de TEA.

Segundo a especialista, a expressão “cada criança tem seu tempo” é apenas parcialmente correta.

“Existem particularidades individuais, mas também há habilidades esperadas para determinadas faixas etárias. É esperado, por exemplo, que uma criança comece a sentar por volta do sexto mês de vida e consiga permanecer sentada sem apoio perto do nono mês. Caso isso não aconteça, pode ser um alerta”, explicou a psiquiatra.

Além disso, a médica destacou a importância da caderneta de saúde infantil, que reúne os principais marcos do desenvolvimento da criança.

Rotina, sensibilidade e adaptação: os desafios do dia a dia

Giovanna Lacanna e Leandro Gambetta, pais de Valentina Lacanna dignosticada com TEA em 2021.

O acompanhamento próximo e a percepção de que algo estava diferente no desenvolvimento da filha levaram Giovanna Lacanna a procurar ajuda profissional para Valentina.

Assim, em 2021, aos 4 anos, a menina recebeu o diagnóstico de TEA nível 1 de suporte. A notícia transformou a dinâmica familiar, alterando a rotina da casa, a relação entre pais e filha e a forma de lidar com situações cotidianas que, para pessoas neurotípicas, costumam parecer simples.

Os primeiros sinais surgiram ainda na infância.

“Desde pequena sempre foi muito difícil. Ela tinha muitas crises, chorava constantemente e qualquer coisa que fugisse do ‘normal’ a desestabilizava”, contou Leandro Gambetta, pai de Valentina.

Para Giovanna, a necessidade de buscar respostas ficou evidente durante a mudança da família em 2021.

“Quando nos mudamos, ela não andava sozinha e tinha muita dificuldade de adaptação”, relembrou.

Semelhanças chamam atenção

Os relatos de Flavia e da família de Valentina apresentam pontos em comum. Entre eles, está a sensação constante de tédio e necessidade de estímulo, característica frequentemente associada ao TEA.

Enquanto Flavia encontrou no universo acadêmico uma forma de lidar com essa necessidade, Valentina enfrenta dificuldades para se conectar com a escola por não enxergar desafios no ambiente escolar.

Além disso, existem necessidades específicas em atividades consideradas comuns do cotidiano. Flavia revelou que precisa consumir alimentos de maneiras específicas, mesmo sem apresentar grandes restrições alimentares.

Já Giovanna relatou que a filha possui forte apego à rotina.

“Qualquer micro alteração daquela rotina pré-estabelecida pela mente dela pode ser um gatilho para ela se desestabilizar”, explicou a mãe.

Diante do aumento dos diagnósticos e da conscientização sobre o transtorno, especialistas reforçam a importância do diagnóstico precoce, do acesso à informação e da ampliação do suporte às famílias, especialmente na rede pública de saúde.

Julia Souza, que atuava como acompanhante escolar de uma criança autista, explicou que crises sensoriais eram frequentemente desencadeadas por barulhos altos, excesso de estímulos e mudanças no ambiente escolar. “Eu precisava entender o que tinha gerado aquela crise”, contou. Segundo ela, retirar a criança do ambiente estressor e levá-la para locais mais tranquilos ajudava no processo de estabilização emocional.

O crescimento dos diagnósticos de autismo também está ligado ao aumento da informação e da conscientização sobre o transtorno.

Para Flavia, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce, ao tratamento e ao acolhimento é fundamental para melhorar a qualidade de vida das pessoas dentro do espectro autista e de suas famílias.

Por Daniel Kiss, Júlio Marconi, Luigi Lacanna e Thomas Oliveira

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