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10-abril-2026 Ano 2

Milei x AFA: a luta para tornar clubes argentinos em SAFs

O modelo administrativo do futebol argentino vive hoje um racha histórico. De um lado, os clubes e a Associação do…
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O modelo administrativo do futebol argentino vive hoje um racha histórico. De um lado, os clubes e a Associação do Futebol Argentino (AFA) defendem o modelo associativo tradicional e sem fins lucrativos. Do outro, o governo de Javier Milei tenta impor implementação das Sociedades Anônimas de Futebol (SAFs), modelo já consolidado no Brasil e na Europa.
O papel dos sócios nos clubes argentinos é valorizado culturalmente, tanto pela torcida quanto pelos administradores. Os quadros de sócios no país tendem a ser mais numerosos que os de times brasileiros. “A AFA entende que há um papel importante da identidade cultural; a ligação dos torcedores com o clube é uma coisa muito intensa”, afirma o comentarista da ESPN, Thiago Simões, em entrevista à
Agenzia. “A política entra em campo nesse modelo tradicional, onde os clubes são associações civis sem fins lucrativos. Do outro lado, Milei acredita que os clubes devem contar com donos e investidores para que haja um maior desenvolvimento financeiro.”
Para os torcedores, o futebol argentino ainda é vibrante, mas perde força devido aos bastidores. “O principal problema hoje é econômico. A diferença financeira em relação ao Brasil é muito grande, principalmente pelo dinheiro investido aí”, disse Gustavo Rey, barra-brava do Racing.

Torcedores da seleção de futebol da Argentina celebram e lotam uma arquibancada de estádio.
Torcedores
argentinos demonstram a forte ligação cultural entre clubes, sociedade e identidade
nacional. (Wikimedia Commons / CC BY-SA)

O resultado dessa crise é a frustração de atletas que buscam melhores oportunidades. Atualmente, há um êxodo de talentos argentinos para ligas estrangeiras por causas majoritariamente econômicas. Um exemplo é a discrepância entre as premiações da liga local e do Brasileirão: em 2025, o
campeão brasileiro, Botafogo, recebeu R$ 48,1 milhões; já o Vélez Sarsfield, campeão argentino em 2024, recebeu o equivalente a R$ 2,6 milhões. O valor é próximo à premiação da Série B brasileira, onde o Coritiba recebeu R$ 3,5 milhões. Sobre essa desigualdade, Gustavo Rey desabafa: “Dá uma certa revolta ver essa diferença, mas, ao mesmo tempo, os clubes argentinos nunca deixam de competir.
Essa essência ainda existe”.


A política como herança

O futebol argentino é marcado por casos de interferência política, propaganda e escândalos orçamentários. A política interna da AFA e seus personagens são influenciados pelo cenário do país. Uma dessas personalidades foi o falecido ex-presidente da associação Julio Grondona. O dirigente foi um dos nomes mais importantes da história do futebol argentino por seu pragmatismo em meio aos
embates nacionais.

Julio Grondona, ex-presidente da AFA, foi uma das figuras mais influentes do
futebol argentino e protagonista de sua relação com a política. (Wikimedia
Commons / CC BY-SA)

“A era Grondona foi marcada por mais de 30 anos de relações muito próximas com os governos. Ele tentou garantir um fluxo de caixa robusto para as equipes e segurança jurídica”, explica Thiago Simões. Segundo o jornalista, quando o governo mudava, o cartola se apressava em se alinhar à nova gestão para
garantir esses interesses aos clubes.
No entanto, o legado de Grondona foi manchado após sua morte em 2014, quando o FBI divulgou o maior escândalo do futebol mundial: o Fifa Gate. As acusações apontavam Grondona como participante de um esquema de corrupção na Conmebol por 24 anos. Testemunhas afirmaram que ele recebeu propina para votar na Rússia e no Catar como sedes das Copas do Mundo de 2018 e 2022.
Pouco após as audiências que acusaram Grondona e outros agentes, o nome de Jorge Alejandro Delhon surgiu nas investigações. O executivo trabalhou no governo de Cristina Kirchner e foi um dos dirigentes do programa estatal Fútbol Para Todos (FPT), criado em 2009 para democratizar o acesso aos jogos em rede aberta. Em entrevista à Agenzia, o jornalista Fernando Martins y Miguel afirmou que
o FPT teve efeitos ambíguos: “Por um lado, aumentou a visibilidade e injetou dinheiro estatal nos clubes; por outro, comprometeu o modelo de receitas sustentáveis”.
O programa funcionou até 2017 e, embora garantisse uma renda mínima anual à AFA, as receitas publicitárias nunca alcançaram as metas. O relatório da Auditoria Geral da Nação de 2015 apontou que o investimento privado era mínimo se comparado ao gasto público. As principais denúncias sobre o programa foram movidas pela deputada Graciela Ocaña, que também contribuiu para as
investigações do caso Fifa Gate.

A então presidente Cristina Fernández de Kirchner ao lado de Diego Maradona em
evento que simboliza a relação entre Estado e futebol na Argentina. (Presidencia de
la Nación Argentina / Wikimedia Commons / CC BY 2.0)

Os clubes da primeira divisão recentemente anunciaram uma greve em apoio ao presidente da AFA, Claudio Tapia, que está sendo investigado por suposta apropriação indevida de 19 mil pesos argentinos.

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Autoria Humana Exclusiva

Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

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