sábado

11-abril-2026 Ano 2

Ressignificando a nostalgia dos anos 2000.

Como a geração Z está lidando com a descoberta dos bastidores problemáticos dos programas infantis do canal Nickelodeon?
1 Min Read 0 130
Imagem ilustrativa mostrando uma TV ligada na Nickelodeon.
Televisão ligada no canal Nickelodeon – Foto: Letícia Alves/Agenzia

Durante os anos 2000 a 2010, foram lançados diversos seriados, do gênero comédia, com foco no público da geração Z principalmente no canal Nickelodeon. Em pouco tempo, seriados como iCarly, Drake & Josh, Brilhante Victoria, Sam & Cat, ganharam grande reconhecimento entre as crianças e pré-adolescentes naquela época, que assistiam ao programa diariamente neste canal de televisão. 

Quando os programas se encontravam no auge da audiência, as produções transmitiam a percepção de um ambiente saudável. No Brasil, as piadas soavam tranquilas, porque as dublagens deixavam o contexto das piadas mais suaves. Mas em inglês elas tinham sempre cunho sexual ou alguma segunda intenção por trás.

Imagem ilustrativa mostrando uma pesquisa sobre séries da nickelodeon.
Tela mostrando séries de sucesso da Nickelodeon – Foto: Letícia Alves/Agenzia

Com o amadurecimento dessa geração, que hoje tem por volta de 18 e 32 anos, a visão sobre essas séries foi se modificando. E com o estouro das redes sociais, pessoas que consumiam esses programas passaram a prestar mais atenção em cada detalhe presente nos desenhos. Mas as emissoras entraram em ação para abafar todo e qualquer tipo de prova sobre os crimes cometidos. 

Foi em 2022, quando a atriz de iCarly e Sam & Cat, Jennette McCurdy, lançou seu primeiro livro chamado Estou Feliz Que Minha Mãe Morreu, e nele expôs todo o abuso psicológico e sexual que sofria dentro da emissora Nickelodeon. O que fez tudo que foi escondido pelas mídias voltar à tona e com muito mais força, já que agora havia provas de que era realmente tudo verdade. 

Sofia Akie Itokazu, estudante de dança da Anhembi Morumbi de 18 anos, admite que tem receio de rever os programas: “Teria uma percepção completamente diferente, até porque, quando crianças, não entendemos piadas e gestos com duplo sentido, então cenas com cunho sexual passam despercebidas”.

“A memória afetiva em volta desses programas é muito grande, mas é impossível ver nesses programas sem pensar, também, no que acontecia por trás das câmeras”

Destaca Manuella Motta

A desconstrução de um império

O crescimento de comentários prejudiciais à emissora foi o estopim para que denúncias anônimas também crescessem de uma forma exagerada. Foi então em 2024 que a série expondo diretores da emissora Nickelodeon veio à tona, com depoimentos de atores como Drake Bell  de Drake & Josh, funcionários da época e parentes de atores que viveram anos de abusos psicológicos e sexuais, sem poderem falar nada apenas por terem assinado um contrato. O documentário repercutiu nas redes sociais, o que abriu portas para mais pessoas denunciarem os comportamentos abusivos do produtor Dan Schneider por trás das câmeras, que eram mascarados pela Nickelodeon. 

Imagem ilustrativa mostrando a logo da marca do diretor acusado de assédio.
Logo da marca de Dan Schneider – Foto: Wikipédia     

O homem que dirigia grande parte dos sucessos da emissora tornava o ambiente de filmagem tóxico e tenso para os atores, que na época tinham entre 12 e 15 anos. A audiência que assistia a esses seriados não tinha idade o suficiente para sentir a energia ruim que cada um dos desenhos passava. Com cenas que possuíam segundas intenções e piadas pesadas, tendo em vista o público alvo do programa.

Os telespectadores, por sua vez, adquiriram costumes fora do comum, pelo fato de consumirem em excesso esses programas. Para o público infantil, em sua maioria, os seriados funcionavam como uma referência de comportamento, influenciando a forma como enxergavam relações, limites e interações sociais. 

Com os consumidores desses conteúdos em outra fase da vida, existe um conflito entre a memória afetiva da infância e a percepção atual de que muitos desses elementos eram problemáticos. Esse choque revela não apenas uma mudança de olhar, mas também um processo de amadurecimento, em que o indivíduo passa a questionar referências que antes eram aceitas sem nenhuma crítica.

Imagem ilustrativa mostrando a curiosidade do público em relação as denúncias.
Tweet retirado da rede social X (antigo Twitter) no início das denúncias. Foto: Maria Eduarda Cruz/Agenzia

Do riso à tolerância: a banalização da violência na tela

Com grandes sucessos da televisão tendo exposições de abusos, surge a reflexão: até que ponto falas e ações normalizadas e presentes nestes programas que participaram da formação de crianças e adolescentes, influenciaram a formação de adultos com comportamentos parecidos, visto que casos de feminicídio, misoginia e abusos físicos e mentais entre homens e mulheres crescem cada vez mais?

“Não se trata apenas de rever um programa, mas de ressignificar uma memória afetiva importante”

Enfatiza Flávia Sodré, formada em psicologia pela Pontifícia Universidade Católica.

A psicóloga evidencia que, para jovens, esse tipo de descoberta tem um impacto emocional significativo. Quando esses abusos vêm à tona, é comum surgir confusão, desconforto e até mesmo um conflito entre o que antes era visto com carinho e o que hoje é percebido como problemático.

Esse processo também demonstra como certos comportamentos – como desrespeito ou humilhação – foram, em certa medida, naturalizados nesses conteúdos. Durante as fases de desenvolvimento, esse tipo de exposição pode influenciar a forma como se compreendem relações e limites. Não como causa isolada, mas como parte de um conjunto mais amplo de influências.

“Não dá para dizer que estes programas, sozinhos, formam adultos violentos – casos como feminicídio e misoginia envolvem muitos fatores. Mas o conteúdo na infância e adolescência, sim, tem influência”, diz a profissional.

Reduzir esse tipo de violência à mídia seria simplificar demais uma realidade que é construída ao longo dos anos. Mas, ao mesmo tempo, isso não significa que o conteúdo consumido nessa faixa etária seja irrelevante. Essa fase do desenvolvimento é justamente quando são formadas as referências de comportamento, linguagem e relação social. Portanto, quando certos comportamentos aparecem de forma recorrente em produtos de entretenimento, há um grande risco destes serem internalizados de maneira sutil. Não como uma instrução direta, mas como um repertório simbólico que vai sendo incorporado.

“Isso não determina comportamentos futuros, mas pode moldar percepções e acabar reduzindo a sensibilidade a determinadas situações.”

Quando programas de grande audiência exibiam a objetificação feminina, o toque não consentido disfarçado de piada ou a humilhação como dinâmica de poder, eles validaram esses atos. A exposição contínua ao abuso verbal e mental na tela gera uma tolerância na vida real. O que deveria causar indignação passa a ser visto como “o jeito que as coisas são”. Expor esses abusos em documentários e grandes reportagens é um processo de reeducação coletiva.


Autores

  • Maria Eduarda Cruz Marques

    Estudante de jornalismo pela Cásper Líbero com interesse em jornalismo de entretenimento.

  • Estudante de jornalismo na Cásper Líbero, com interesse em seguir na área cultural. Ao lado de Ana Laura Ripamonte, Laura Sodré, Maria Eduarda Cruz e Maya Lemos, buscamos compreender de que forma os programas infantis assistidos na infância influenciam o comportamento dos jovens atualmente.

  • Estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero.

  • Laura Sodré Ramos

    Estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero e redatora no projeto AgenzIA.

  • 26000450
🤖
UTILIZAÇÃO DE IA
Uso Mínimo de IA

A IA foi utilizada apenas para suporte pontual, com controle editorial humano integral.

  • ✅ Revisão/Edição: auxílio de IA
🛠️ Ferramentas utilizadas: ChatGPT
📝 Justificativa: O uso da IA foi para verificar a acentuação e coesão do texto.

Maria Eduarda Cruz Marques

<p style="text-align: left">Estudante de jornalismo pela Cásper Líbero com interesse em jornalismo de entretenimento.</p>