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9-abril-2026 Ano 2

“Sabor chocolate”: o que está por trás da diminuição do cacau nas marcas de chocolate

A crise global do cacau tem impacto direto na indústria alimentícia, que busca alternativas para manter produtos com “sabor” chocolate no mercado. O cenário reacende debates sobre qualidade, preço e a substituição do cacau por compostos artificiais ou menores concentrações do ingrediente
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Ser rico em oxidantes e probióticos, responsável por auxiliar na saúde do coração e pela melhora no humor são só alguns dos benefícios do cacau, a fruta que costumava ser o principal ingrediente do chocolate. A escolha da palavra “costumava” não é por acaso, afinal, o fruto vem sendo cada vez mais camuflado por outros ingredientes no processo de fabricação do doce mais consumido do mundo. Agora tudo é “cobertura sabor chocolate”. O que está por trás desse fenômeno é a crise do cacau, que se tornou o maior obstáculo da indústria de doces nos últimos anos.    

Reprodução: Pexels

Chocolate ou cobertura sabor chocolate?             

Os produtos com o “sabor chocolate”, de maneira mascarada, vêm crescendo e tomando conta das prateleiras. Diversas fábricas de chocolate estão passando por uma reformulação nas receitas e substituição de ingredientes por alternativas mais baratas, como açúcar, óleo de palma e aromatizantes. Por mais que a aparência visual e gustativa possa ser semelhante, o teor de cacau é extremamente abaixo do que os anos anteriores, tornando necessária a aplicação de fiscalização sobre as mercadorias. O Projeto de Lei 1769/19, aprovado em 17 de março de 2026, estabeleceu o mínimo de 25% de sólidos totais de cacau em todos os chocolates presentes no mercado, transformando seus rótulos. 

Em entrevista à Agenzia, o engenheiro de alimentos formado pela Universidade de São Paulo Henrique Cavalhero, afirma que a melhor maneira de identificar se o “suposto chocolate” é de fato chocolate, é olhar a lista de ingredientes.

“O consumidor deve verificar se há manteiga de cacau e massa de cacau em quantidades relevantes. Quando aparecem gorduras vegetais no lugar da manteiga de cacau, ou termos como “cobertura sabor chocolate” ou “produto sabor chocolate”, já é um indicativo de que não é chocolate puro”.

Além da alteração nos ingredientes, o processo de fabricação também sofre modificações. “O chocolate tradicional passa por etapas como a conchagem e a temperagem, que são fundamentais para desenvolver sabor e textura. Já os produtos com substituição de gordura costumam ter processos mais simples e baratos, justamente porque não precisam das mesmas propriedades físico-químicas do chocolate verdadeiro”, conta Cavalhero. 

Mesmo que todos esses processos sejam realizados com o objetivo de manter o doce fabricado o mais parecido possível com o chocolate original, é possível notar o impacto que essas substituições causam no produto. “Esses produtos geralmente têm uma textura diferente, podem ser mais duros ou mais cerosos, e não derretem da mesma forma que o chocolate tradicional”, aponta Cavalhero. Por outro lado, costumam ter maior resistência ao calor e maior durabilidade, o que é interessante para transporte e armazenamento, mas compromete a experiência sensorial.

Cavalhero destaca que as marcas têm intenção de deixar essa substituição do cacau o mais camuflado possível na embalagem. “As empresas podem induzir o consumidor ao erro (letras pequenas do rótulo)”, afirma, “mas não é algo que vai contra a legislação.” E o engenheiro prossegue: “Muitos produtos são apresentados de um jeito que leva o consumidor a acreditar que está comprando chocolate, quando na verdade são ‘produtos sabor chocolate’. A embalagem, cores e até imagens induzem essa percepção, mesmo que legalmente esteja correto. Então não é exatamente uma fraude, mas pode ser considerado um tipo de comunicação que confunde o consumidor.”

Entre mudanças climáticas e impactos originados de fenômenos naturais, a queda na safra africana e a diminuição de importação do cacau são os principais geradores da crise. 

O papel da África na produção de cacau 

Reprodução: Pexels

A questão socioambiental da África influenciou na criação do projeto, uma vez que não se pode garantir as condições sanitárias do cacau coletado no continente. Apesar disso, o cacau importado majoritariamente na Costa do Marfim e Gana apresentava mais atrativos econômicos e os produtores de cacau localizados no nordeste brasileiro estavam sendo prejudicados em função dessa substituição estrangeira.

O cenário ganha ainda mais relevância diante da crise internacional do setor, já que os dois países africanos concentram mais de 60% da produção mundial do grão, tornando-se decisivos para a estabilidade do mercado global, segundo reportagem do G1. Problemas climáticos, doenças nas plantações e oscilações nos preços internacionais têm impactado diretamente a oferta da matéria-prima, refletindo no aumento do custo do chocolate e, consequentemente, em alterações no sabor, na composição e no tamanho dos produtos disponíveis ao consumidor.  

A dependência do mercado externo evidencia não apenas uma questão econômica, mas também uma discussão sobre sustentabilidade, qualidade do produto e os impactos sociais enfrentados tanto pelos produtores africanos quanto pelos brasileiros.

A recente instabilidade no mercado internacional do cacau evidencia como a concentração da produção em poucos países torna a cadeia produtiva mais vulnerável a crises climáticas e econômicas, fazendo com que qualquer oscilação na safra africana repercute diretamente na indústria alimentícia mundial e no bolso do consumidor.  

Drawback: responsável pela mudança da economia alimentícia 

É por isso que, desde 2023, o Brasil adotou a medida provisória (MP) 1341/2026, que visa a redução de dois anos para seis meses, da isenção de impostos para importar cacau (drawback). A implementação dessa política ocorreu pela necessidade de fortalecer a produção e compra local. Na teoria funcionava muito bem, mas, na prática, a indústria brasileira se deparou com menos opções no mercado e o preço do produto final subiu consideravelmente. 

Segundo o economista João Manuel Freitas, CEO da Beeteller, as políticas econômicas têm o objetivo de auxiliar a indústria local, seja defendê-la contra concorrência estrangeira ou incentivá-la e produzir mais ou até melhor com a finalidade de importação.

“Quando se utiliza o mecanismo de drawback, significa que a indústria nacional está com falta ou escassez de determinada mercadoria e o ingrediente é necessário para manter a produção”, afirmou à Agenzia.

O economista destaca que, em um cenário de crise global, a escassez de um produto afeta toda a cadeia, levando o preço a outros patamares e uma busca desenfreada pela aquisição da mercadoria, impactando diretamente a indústria nacional e toda cadeia que depende do insumo. 

É aí que a substituição de ingredientes surge como uma alternativa estratégica. Segundo o economista Freitas, a substituição de ingredientes é uma opção de redesenho do produto, o que pode levar a uma nova categoria de negócios e produtos pelas indústrias.

”No Brasil temos um exemplo clássico que foi a crise do petróleo em 1973 quando dependíamos intensamente da importação de petróleo. Foi desenvolvido o projeto do carro a Álcool no Brasil, substituindo a gasolina”. 

Freitas reforça que o aumento no preço tende a ser pago pelo consumidor final. Embora, em alguns casos, as indústrias absorvam parte desses custos temporariamente, o impacto no preço dos produtos é, em grande parte, inevitável. 

Os substitutos do cacau 

É inegável que os rótulos passaram por alterações significativas alterando o prazer de consumo. Muito além da experiência, essas mudanças geraram uma preocupação quanto à qualidade nutricional do produto final. 

De acordo com um estudo publicado em 2024, a gordura saturada influencia no desenvolvimento de doenças cardiovasculares e sua ingestão deve ser evitada em nível global. Paralelo a isso, há uma movimentação das grandes empresas para driblar a alta do preço do cacau sem que o valor de mercado sofra um crescimento indesejado.  Para substituir a manteiga de cacau,  o óleo de palma passou a ser utilizado e, por se tratar de um alimento rico em gordura saturada, pode apresentar altos riscos à saúde se consumido em excesso. Ou seja, o chocolate que antes era recomendado a ser ingerido com moderação, tornou-se ainda mais artificial e prejudicial para os brasileiros. 

A pesquisa apresentou novas variações que são mais seguras e saudáveis, além de não comprometerem a experiência do cliente. Mesmo assim, a descoberta é recente e ainda não está inserida nas maiores redes de chocolate.

O preço do cacau futuramente 

A turbulência no mercado de cacau persiste desde o tombo de 2023, e tudo indica que os valores permanecerão em patamares controlados até 2030. O Brasil tem a chance de se tornar independente, bastando dobrar suas áreas de cultivo, investir na ampliação agrícola e incorporar novas tecnologias. Com isso, houve um salto na produção em estados-chaves, como Bahia e Pará, que intensificaram suas vendas para o exterior, com um aumento de 5% nas áreas de plantio, o que deve turbinar a produção nas próximas colheitas. Contudo, as intempéries climáticas e as doenças nas plantações derrubam a produção nacional em cerca de 18,5% neste ano. As previsões apontam que a procura global continuará acima da oferta, pelo menos até o fim desta década, o que pode manter os preços em alta, embora com uma leve tendência de queda gradual.

Mas a colheita da fruta ainda leva tempo, entre 5 e 7 anos. Ou seja, os resultados não serão imediatos. “Tudo indica que pode ser uma mudança mais duradoura. O aumento do custo do cacau e questões de produção global têm incentivado a indústria a buscar alternativas mais baratas. Isso pode levar a uma divisão mais clara no mercado: de um lado, produtos mais acessíveis com substituições; do outro, chocolates com maior teor de cacau e qualidade superior, com preços mais elevados”, observa Cavalhero.

Mesmo com os planos ambiciosos de expandir as áreas de cultivo e dobrar as plantações em certas regiões, a recente queda nos preços após o auge de 2024 freou novos empreendimentos agrícolas, limitando os avanços rumo à autossuficiência nacional.

O setor possui um futuro promissor a médio e longo prazo. Estados como a Bahia se destacam no aumento das exportações, impulsionadas pela valorização do cacau no mercado global. Isso fortalece a posição do Brasil no comércio mundial. Desse modo, espera-se um crescimento da área plantada, em cenários mais otimistas. Se essa expansão vier acompanhada de inovações tecnológicas e aumento da  produtividade, o Brasil poderá se consolidar como um fornecedor de peso no mercado mundial.

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Júlia Duarte Cunha

Estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero