Quantas vezes você já pegou o celular “só por um instante” e, quando percebeu, já estava rolando o feed de alguma rede social sem nem lembrar o por quê? Esse comportamento, cada vez mais comum entre jovens, tem explicação.
“As redes sociais não viciam por acaso, eles têm o objetivo de prender a atenção de quem está usando o aplicativo. […] O problema é o padrão imprevisível, não se sabe quando vai vir a próxima recompensa. Esses tipos de reforços são os mais viciantes que existem, porque como não se sabe em que momento vem o estímulo, automaticamente sua cabeça fica presa ali, criando uma dependência, um ciclo vicioso.”
Christian Nascimento Silva Soares, psicólogo especialista em Análise do Comportamento Aplicada (ABA)
O uso compulsivo das plataformas e a busca constante por estímulos e validação reforça debates sobre o “vício em dopamina” entre jovens brasileiros. Isso levanta discussões sobre como esses impactos podem se manifestar de formas diferentes entre meninas e meninos.
Mas o que está por trás desse comportamento impulsivo?
Christian explica que as redes sociais são construídas sobre um contexto onde você não sabe quando vai receber algo bom, então continua tentando. Essa ‘’incerteza’’ é responsável por liberar a dopamina, um mensageiro químico que atua no cérebro e é encarregado de proporcionar sensações de prazer e satisfação quando você faz algo agradável.
Ligada ao sistema de recompensa do cérebro, a dopamina atua nos processos de motivação e expectativa, o que pode estimular a repetição de determinados comportamentos. Logo, cada vez que algo positivo acontece, como um like ou comentário, o cérebro registra e sente a necessidade de acontecer de novo.
Além disso, de acordo com o especialista, o uso repetitivo e prolongado das redes sociais altera eixos importantes, fazendo com que os jovens evitem tarefas demoradas, tenham dificuldade de concentração e sensação de mente acelerada. Isso pode causar sintomas de TDAH para quem já tem essa predisposição e piorar quadros de ansiedade, depressão e distúrbios de sono.
Entre comparação e desempenho: como o impacto muda entre os gêneros
Os impactos do uso excessivo das redes sociais também afetam a forma que os jovens se veem e se identificam. Uma sondagem realizada informalmente pelo portal Agenzia com 110 jovens entre 14 e 24 anos expõe que a aparência é a principal fonte de pressão das redes, especialmente para as mulheres.
As mulheres são muito mais expostas à comparação do que os homens, porque socialmente são ensinadas que devem ser perfeitas. Assim, quando veem alguém com uma qualidade maior que a dela, seja aparência ou desempenho, por exemplo, sentem que deveriam ser assim, enquanto os homens não sentem toda essa pressão para serem perfeitos.
Jovem mulher de 20 anos em depoimento anônimo à sondagem
Temas como consumo e tendências também afetam majoritariamente o público feminino. Conteúdos que reforçam a comparação e a idealização são mais atrativos para esse nicho. A psicóloga Marcella Giorgio Geromel afirma:
“Com a internet e as redes sociais, se criou uma necessidade de perfeição baseada em um único conceito de beleza […] isso destrói a autoimagem e autoestima das meninas”
Já entre os meninos, o impacto costuma ser mais silencioso. Dessa forma, ao invés de uma pressão explícita ligada à aparência, é mais comum que essa influência se manifeste no consumo de conteúdos repetitivos. Jogos e vídeos curtos, por exemplo, estimulam a permanência a longo prazo na plataforma. O uso é mais voltado ao entretenimento, competição e distração, e as redes sociais são mais vistas como estímulo e passatempo. Esse cenário pode levar a dificuldades de atenção, foco e controle/noção do tempo.

Assim, a diferença central entre os gêneros é que as meninas sofrem mais com o que pensam sobre elas, tanto aparência quanto comportamento individual. Já os meninos sofrem mais com o que consomem e com o tipo de conteúdo que eles passam horas assistindo. Em ambos os casos, o mecanismo é o mesmo: recompensas imediatas que ativam o sistema de prazer do cérebro, reforçando o uso contínuo e o vício nessas plataformas.
Para Marcella, o grau de vulnerabilidade é determinante no processo:
‘’Pessoas em um ambiente estável tendem a não viciar com facilidade, pois têm outras fontes de dopamina, como família e amigos’’
O impacto na vida dos jovens e as medidas de proteção no ambiente digital
No Brasil, dados comprovam que as redes sociais estão muito presentes no cotidiano da juventude. De acordo com a pesquisa “My Teen Life: uma História Global”, realizada em 30 países pela Viacom, 86% dos adolescentes no mundo compartilham conteúdos nas redes, já no Brasil, esse número sobe para 91%.
Com o objetivo de combater os riscos que o uso excessivo das plataformas digitais carregam, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital trata de temas como segurança online, combate ao cyberbullying e prevenção contra crimes digitais. Dessa maneira, ele busca atualizar e fortalecer a proteção garantida pelo ECA no ambiente virtual, promovendo conscientização, segurança e educação digital.
Por isso, a atualização do Estatuto em março de 2026 impõe uma verificação rigorosa de idade, contas de menores de 16 anos vinculadas aos responsáveis, proibição de mecanismos como “rolagem infinita” e da coleta de dados de crianças e adolescentes para fins publicitários. A efetivação das alterações surgiu para que os jovens possam utilizar a tecnologia de forma responsável e protegida sob a lei.
Por Clara Geromel, Heloísa Campos, Isabela Tomasi, Larissa Santos, Pietra Giroto e Rafaela Seiler.
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