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9-abril-2026 Ano 2

Adaptações literárias: seus impactos na indústria do entretenimento

Somente em 2026, mais de 19 adaptações já estão confirmadas para produção, um número que evidencia a força desse fenômeno. Entenda a história e a lógica por trás de um sucesso tão expressivo.
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Bridgerton, Harry Potter, Wicked e Turma da Mônica são exemplos de obras cinematográficas que vêm ganhando o carinho do público ao longo do tempo. Mas o que todas elas têm em comum? Todas são baseadas em obras literárias. As adaptações literárias são a forma que a indústria do entretenimento encontrou para conectar diferentes tipos de artes com obras já famosas e consagradas que nasceram nos livros. Ao serem transformadas em filmes, séries, peças de teatro e produções para streamings, elas ganham novas interpretações, novos fãs e novos finais. Além de recuperar narrativas clássicas, esse movimento também estimula o mercado cultural, gerando discussões sobre a criatividade nas releituras e interesses comerciais envolvidos.

As primeiras adaptações literárias, feitas no final do século XIX, vieram por motivos práticos: o cinema era mudo e as obras audiovisuais buscavam ser menos complexas para facilitar a compreensão do público.

Das páginas de livros às telas: por que adaptações?         

Os curta-metragens, por ainda estarem sendo desenvolvidos, exigiam um resumo dos livros, o que podia alterar o enredo da obra. A fidelidade não era prioridade, já que o ponto principal era desenvolver o cinema como um novo meio de linguagem, focado na comunicação com o público. Vitorya Pez, estudante de cinema na Universidade de Biola, na Califórnia, conta que, hoje, a principal preocupação dos seus colegas de profissão é transmitir a mensagem principal da história. Além do momento em que as personagens se encontram, mesmo que isso comprometa manter a fidelidade. 

O clássico conto de fadas Cinderela, escrito por Charles Perrault, em 1697, foi adaptado para um curta com duração de 6 minutos, em 1899, fascinando a audiência que já conhecia a personagem. Mais tarde, obras como Drácula e O Mágico de Oz também receberam suas adaptações, em 1931 e 1939, evoluindo cada vez mais em sua produção e veracidade com a história original.

Nos dias atuais, comentários nas redes sociais (TikTok e X) mostram que a exigência do público redobra-se quando é anunciado que a história de um livro querido vai parar nas telas do cinema ou da TV. Com novas tecnologias disponíveis, diretores renomados, nomes de peso no elenco e orçamentos impressionantes, é dever dos produtores fazer jus ao enredo original, principalmente se esse já foi bem recebido pelas pessoas em um primeiro cenário. 

 A cada adaptação bem realizada, independente do seu formato, nas várias linguagens, é grande o número de leitores que se volta para os textos que a precederam, segundo João Luís Ceccantini, coordenador do grupo de pesquisa “Leitura e Literatura na Escola”, que agrupa professores de várias Universidades do Brasil. No artigo “Adaptações literárias para jovens leitores”, publicado na revista Com Ciência. A publicação também explica que as adaptações bem feitas podem servir como um convite à leitura que as precede, desde que realmente sejam identificadas como adaptações que, não necessariamente, têm compromisso em seguir a história. 

Tanto as sagas de livros quanto as histórias menores contam com uma legião de fãs, ansiosos para vê-las se materializarem, das mais realistas às mais surreais. Sendo assim, por que nem sempre ficamos satisfeitos com os resultados? Simples: a fidelidade às obras originais, por vezes, deixa a desejar.

Cinema Reserva Cultural – Foto: Rafaela Martins / AgenzIA

O “boom” das adaptações e suas consequências

Apesar das adaptações literárias estarem presentes na indústria do entretenimento há  bastante tempo, foi a partir dos anos 2010 que houve um significativo aumento nesse tipo de produção. Segundo a coluna “The Rewind Zone” , 75% dos filmes produzidos em 1984 eram obras originais, em comparação com os anos de 2010, onde mais de 70% são derivados de livros. Sagas como Percy Jackson, Jogos Vorazes e Diário de um banana, que marcaram a infância da atual geração Z, abriram diversas portas para um maior interesse da indústria cinematográfica nesse tipo de produção.

Mas o que pode explicar esse aumento repentino no consumo desse tipo de conteúdo? O público jovem dá preferência a produções como vídeos curtos, filmes e séries, os quais são mais fáceis e rápidos de serem consumidos. Enquanto uma leitura completa de uma saga de livros pode demandar um longo período de esforço (semanas e até mesmo meses), o conteúdo audiovisual (seja filme ou série) possibilita um consumo rápido e ainda assim de boa qualidade, que permite compreender e se aprofundar na obra sem gastar muito tempo, sendo muitas vezes preferidos devido ao mundo imediatista no qual vivemos.

Por outro lado, surge a dúvida: o cinema e os livros podem caminhar juntos sem causar danos um ao outro? Em entrevista exclusiva para Agenzia, Paula Pimenta, autora de séries de livros que já foram adaptados como Fazendo Meu Filme e Minha Vida Fora de Série, afirma que a adaptação para as telonas de seus principais sucessos não afetaram a venda de seus livros. Para a autora, o cinema pode funcionar como um gancho para uma procura pelos livros: “Em relação a outros livros meus, houve maior interesse, mas em relação a outras obras minhas mais do que o livro em si que foi adaptado.”

Mas até onde a criatividade do roteirista pode ir sem ferir a obra original? Ao produzir uma obra adaptada, os roteiristas enfrentam muitos desafios quanto ao conteúdo escolhido para ser incluído na produção, já que nem tudo poderá ir para a versão final (seja pelo tamanho que deve ser reduzido para ser exibido em cinemas e streamings ou até mesmo na inviabilidade de produzir certos momentos).

Ao filtrar o conteúdo e realizar as modificações para as adaptações literárias, os produtores podem acabar deixando de fora momentos essenciais e extremamente adorados pelos fãs, “Quando eu vou assistir a uma adaptação e ela não é tão boa quanto o livro, eu acabo ficando decepcionada. Acho que o maior problema é que realmente tem coisas que funcionam no livro, mas não funcionam tão bem em cena” – afirmou Vitorya Pez na entrevista exclusiva para o portal. Assim, acaba surgindo uma tensão entre obra e o público-alvo, que deseja que a adaptação seja o mais fiel possível à obra original (tanto por respeito ao livro, quanto por apego emocional).

Essa “tensão” entre a fidelidade e a criatividade já marcou diversas polêmicas na indústria do entretenimento. A série Game of Thrones, inspirada na saga literária de George R.R. Martin, “A Song of Ice and Fire”, marca bem essa dificuldade com um dos piores finais de séries já produzidos, de acordo com avaliações disponíveis no IMDB,  crítica que vem diretamente da falta de fidelidade do final produzido com os livros da saga, que ainda não foi terminada. Apesar das críticas, a última temporada da série marcou uma audiência de 44,2 milhões de espectadores por episódio, segundo a revista Rolling Stones. Esse número demonstra como, apesar das críticas, a chamada “fan base” da série continuou fiel ao programa até o seu final, demonstrando também um dos motivos pela escolha de adaptar livros em filmes: a alta audiência que retorna em grandes lucros.

Desafios da adaptação e o papel do streaming.

Quando é anunciada uma nova adaptação literária que chegará aos cinemas, cria-se uma grande expectativa dos fãs da obra sobre como ela será retratada nas telonas. Um dos pontos mais pertinentes é se os personagens e a ambientação conseguirão transmitir o mesmo sentimento que tiveram ao ler o livro.

Nesse contexto, o foco da ambientação em adaptações recai, na maioria das vezes, na questão visual. Porém, além dela, a questão sonora — que pode passar despercebida para leigos — é um dos principais fatores quando se trata de construir essa ambientação no audiovisual.

Segundo um artigo publicado na revista inglesa Ilha do Desterro, especializada em literatura e estudos culturais, obras como as de Jane Austen exigem que o cinema vá além da imagem. O artigo afirma que “o ponto de escuta, representado pela literatura ou pelo cinema, cria identificações entre leitor ou espectador e personagens ainda pouco explorados” e que “a mise-en-scène que Austen construiu está baseada no que se ouve e não no que se vê. Portanto, o roteiro e a adaptação devem ser feitos com base em pontos de escuta, mais do que em pontos de vista.”

Livros que viraram adaptações literárias, da saga “Minha Culpa”, disponíveis na Livraria da Vila – Foto: Rafaela Martins / AgenzIA

Com a chegada dos streamings, mudanças na ambientação precisaram ser feitas. Uma experiência que antes era direcionada para uma grande tela e alto-falantes capazes de distribuir o som por uma sala ampla hoje também precisa ser adaptável a celulares, computadores e televisões. Além dessas mudanças, houve também um aumento na demanda e nas expectativas do público.

Como um dos grandes impactos da chegada dessas plataformas, destaca-se a popularização e a globalização das obras. Um exemplo é a série O Verão Que Mudou Minha Vida, adaptação do livro de mesmo nome, que se tornou um fenômeno da geração atual. A série apresenta uma ambientação marcante, trazendo ao público cenários importantes do livro e utilizando músicas contemporâneas que se conectam tanto com a obra quanto com o público, fazendo com que os espectadores especulem teorias sobre os próximos episódios a partir dessa ambientação, criando uma conexão com a obra.

O lucro por trás dos fandoms

Muitos têm sido os impactos que as adaptações literárias têm trazido para a economia; estúdios vêm priorizando a adaptação de livros devido a grande quantidade de público já consolidado, o que contribui para uma maior audiência nos cinemas e streamings, reduzindo os riscos de fracasso de bilheteria ou cancelamentos.

“Não houve uma mudança significativa nas vendas. Quem já gosta do livro tende a assistir ao filme, e quem conhece a história pelo audiovisual pode ou não procurar a obra original”, afirma a escritora Paula Pimenta. Ainda assim, as adaptações de livros de fama global se consolidam como produtos altamente lucrativos em ambas as versões, tanto literárias quanto no audiovisual. Exemplos disso são as franquias dos filmes Harry Potter e a série de televisão Bridgerton que segue sendo renovada para novas temporadas.

No âmbito social, essas produções impulsionam a criação de fandoms – comunidades digitais ou físicas de fãs apaixonados – em que as pessoas que fazem parte, compartilham interesses em comum. No mundo das adaptações, os fãs não agem apenas como espectadores, mas como críticos e também promotores das obras. 

As adaptações literárias também ampliam o acesso às histórias, atraindo novos públicos por meio do audiovisual e incentivando o consumo em salas de cinema e plataformas digitais. As influências das adaptações também se refletem na linguagem, incorporando-se ao vocabulário de uma geração inteira como em Harry Potter em que a palavra “trouxa” descreve uma pessoa sem habilidades e até mesmo ingênua ou referências culturais, impactando o turismo em Londres, por exemplo.

Essas produções também contribuem para debates sociais. A série de televisão americana The Handmaid ‘s Tale, intensifica discussões a respeito da misoginia e dos direitos reprodutivos. O filme americano O Ódio que Você Semeia, também uma adaptação, aborda temas como a brutalidade policial, o racismo estrutural e o privilégio branco que provocou conversas sobre justiça social e a juventude negra.

Impactos culturais

No campo cultural, clássicos podem ganhar uma nova vida nos cinemas como Auto da Compadecida e Orgulho e Paixão promovendo tanto a preservação cultural quanto a popularização da leitura. Essas produções levam novas interpretações que aproximam obras mais antigas e densas do público contemporâneo.

Nas obras literárias, há uma grande quantidade de personagens famosos no mundo dos livros que quando são adaptados, viram ícones globais. O personagem James Bond, da saga de livros de filmes 007, é um dos agentes secretos mais longevos da história e que se tornou sinônimo de cinema. 

Obras nacionais podem se tornar globais após sua adaptação. É o caso do livro brasileiro Ainda Estou Aqui, que após sua adaptação para o audiovisual, virou um fenômeno mundo afora, em que contribuiu para a valorização da memória histórica da ditadura militar e para o cinema nacional brasileiro, conquistando vitórias inéditas como na premiação Globo de Ouro na qual Fernanda Torres (Eunice Paiva) venceu na categoria Melhor Atriz em Filme de Drama e logo após conquistando o prêmio de Melhor Filme Internacional no Oscar 2025.

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Maria Clara Filippetti Martins

Casperiana cursando o 1° semestre de jornalismo