Nos últimos anos, elementos marcantes das décadas passadas voltaram à moda entre os jovens. Calças largas, cintura baixa, óculos retrô e câmeras analógicas passaram a fazer parte do cotidiano e do estilo de uma geração que, em muitos casos, sequer viveu esse período. Por que antes o que era considerado ultrapassado, agora impulsionado pelas redes sociais, retorna como tendência?
A volta do passado ao presente é uma realidade nas novas gerações. Em um mundo cada vez mais globalizado e integrado à internet, o acesso a informações de diversas épocas se tornou algo simples, e trouxe à tona a valorização das músicas, dos estilos, filmes e séries e das tecnologias utilizadas, assim criando uma nova “trend” que coloca a nostalgia como o centro das atenções.
Do antigo ao atual: a força das referências passadas
A pandemia de Covid-19 ajudou a consolidar a volta do passado e a aderência de tendências pela Geração Z. O período marcado por grandes instabilidades permitiu que os jovens resgatassem elementos de décadas passadas para se sentirem mais seguros em um momento que não havia perspectiva. A música foi o componente que mais teve repercussão devido ao aumento do uso das redes sociais, como TikTok e Instagram, e fez com que os artistas sentissem a necessidade de se reinventar.
Personalidades de décadas passadas como Britney Spears e Spice Girls voltaram a ser mencionadas, o que influenciou diretamente nas produções atuais. Cantores como The Weeknd e Dua Lipa viralizaram entre 2020 e 2021 por conta das novas estéticas adotadas em seus álbuns After Hours e Future Nostalgia, ambas as faixas possuem um pop dançante e repetitivo, principais características dessa época.
Esse movimento de resgate não se limita apenas à música e à estética, mas se expande para o audiovisual, filmes e séries de décadas passadas voltam a ser revisitados e valorizados pelas plataformas de streaming e pelas redes sociais. Segundo o crítico de cinema Lucas Leite Tinoco, esse movimento não é algo exclusivo desse grupo, mas ganha novas proporções com as redes sociais.
“A Geração Z não é tão distinta das outras nesses quesitos de se revisitar.”
À Agenzia, ele complementa que o cinema é um fenômeno que ocorre de maneira cíclica, ou seja, obras que marcam gerações acabam voltando às telas seja como reboots ou como continuações.
Já foi anunciado que O Diabo Veste Prada, um dos filmes mais icônicos dos anos 2000, terá uma continuação, cerca de 20 anos após sua estreia. A expectativa em torno da volta de personagens que marcaram a infância de muitos, reforça como narrativas e personalidades marcantes seguem despertando interesse e engajamento, mesmo décadas depois.
O mercado atual e os itens nostálgicos

Com a volta de estéticas que um dia foram tendências, a dinâmica na produção de conteúdos atuais têm mudado. Diferentemente do passado, hoje em dia, marcas que aderem a elementos nostálgicos acabam tendo mais destaque no mercado do que aquelas que lançam novos produtos. O termo unshitfication define justamente a volta da estética pré internet, devido à saturação do que está disponível nos dias de hoje.
Esse cansaço reflete na substituição de itens mais recentes e tecnológicos por materiais que já eram utilizados, como a volta das câmeras analógicas, fones de ouvido com fio e discos de vinil. A alta procura da nova geração por esses itens também impacta na superfaturação dos mesmos, que por não serem mais produzidos, se tornam exclusivos.
Segundo a marketeira Giulia Beatriz Roveri, criadora da página Marketalizando, investir em tendências mesmo que já tenham acontecido no passado, continua sendo arriscado, assim como qualquer outra.
“ Não é menos arriscado só porque já aconteceu antigamente. Toda tendência tem um prazo de validade, o importante é escolher a hora certa de apostar nessa tendência”, disse.
Busca pela autenticidade através do estilo

A moda é um mercado dinâmico que avalia o comportamento do consumidor e possui um ciclo cíclico a cada 20 anos, em que todos os anos tendências vêm e vão. Nos últimos tempos, esse ciclo está entrando em colapso, acompanhando o ritmo acelerado da sociedade e o desejo de reviver experiências nunca vividas, seja por meio de artefatos retrô ou resgate de estilos passados.
Para explicar esse fenômeno que vem moldando o consumo na nova geração, Isabella Venâncio, curadora da própria loja vintage, fala sobre o regaste das tendências passadas e o papel dos brechós nessa busca por autenticidade em meio a um mundo globalizado.
“As pessoas estão querendo reviver momentos do passado que nem são tão distantes, como os anos de 2010. O mundo está em um momento político e economicamente tão crítico, que reviver o passado seria como poder se lembrar de tempos melhores e romantizar a vida.”
A busca por brechós também se relaciona ao discurso da sustentabilidade e ao aumento da busca por peças vintages. O que antes era um ambiente considerado simples, com preços acessíveis e boas opções de roupas sem a necessidade de serem novas, hoje é impulsionado pelo desejo das pessoas se diferenciarem em um mundo que está em constante mudança. Como curadora e frequentadora de brechó desde sempre, Isabella afirma que como compradora sentiu essa mudança, entretanto, como empreendedora o aumento de peças vintage cresceu principalmente entre o público de 18 a 25 anos, fator que está sendo utilizado como estratégia de marketing no mercado.

Afinal, por que a nova geração revive o passado?
Do ponto de vista psicológico, o apego crescente da nova geração ao passado está diretamente ligado à forma como a nostalgia atua como mecanismo de proteção emocional. A psicologia contemporânea entende a nostalgia não mais como um sentimento paralisante, mas como um recurso capaz da percepção de sentido na vida.

Estudos em neurociência mostram que a nostalgia envolve processos cerebrais ligados à memória. Esses processos ajudam a explicar por que o contato com músicas, estéticas, moda e símbolos do passado provoca sensações de conforto e acolhimento.
Segundo a psicóloga Mychelly Dias de Carvalho, é essa “saudade” que está marcando esse cenário, mantendo o ‘estilo’ da nova geração em um conforto necessário neste século de muitos embates globais:
“Essa nostalgia não surgiu ao acaso; ela é um mecanismo de defesa coletivo, tentando encontrar conforto em algo que já vem pronto, já fez sucesso, já tem garantia. Acredito que essa nostalgia seria uma busca por conforto”.
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