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9-abril-2026 Ano 2

Reinvenção do teatro e da ópera – a volta da GenZ às artes cênicas

A busca por novas sensações e experiências imersivas fora da internet estão transformando o comportamento dos jovens em relação aos centros artísticos
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A busca por novas sensações e experiências imersivas fora da internet estão transformando o comportamento dos jovens em relação aos centros artísticos

O brasileiro usa as redes sociais por no mínimo 3 horas todos os dias, e com a ajuda dos “feeds” e “timelines” infinitos, é possível entrar em contato com diversas manifestações artísticas por minuto. Nunca foi tão fácil ver arte, mas por que a geração Z ainda sente falta de algo? A resposta está no excesso. 

As artes cênicas podem fazer perfeitamente algo que a internet ainda busca a fórmula perfeita: conexão direta com o espectador. Entre o palco, as luzes e os sons, o espectador percebe que não existe barreira entre ele e a obra. A única coisa que separa a plateia daquele grande ato é a distância. O teatro busca a essência humana sem modificações, ele mostra todas as intenções e desejos sem esconder nada.

Agradecimento final de concerto no teatro Gazeta
Foto de Concerto no Teatro Gazeta, 2024- Foto: Maitê Olyntho/Agenzia

Um dos primeiros contatos com o teatro do artista em formação João Galegari, 18, aconteceu ainda na infância, quando foi assistir uma montagem escolar da peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, performada por seu irmão. Segundo ele, o que mais marcou foi a forma como a peça apresentava a narrativa. “Eu nunca tinha pensado daquela forma”, afirma, destacando o impacto de ver uma história do século 15 ganhar vida no palco. 

O teatro se diferencia de outras formas artísticas por conta da relação direta entre o palco e a platéia. Sem mediações, a obra permite acompanhar de perto as emoções, conflitos e intenções. No caso de Romeu e Julieta, a história também funcionou como uma reflexão de convivência e empatia. “Você aprende a ouvir o outro”, diz, ao comentar como a experiência contribuiu para ampliar sua percepção sobre relações humanas.

Camarim do teatro oficina
Fotos do Teatro Oficina, São Paulo, 2025- Foto: Elisa Nuñez/Agenzia

Em entrevista à Agenzia, a professora e atriz Mariele de Souza, 40, relatou que acredita que o interesse da Gen Z está ligado a formatos mais imersivos e interativos, aqueles que permitem ao público ajudar a construir a narrativa.  “Experiências mais imersivas, onde o teatro sai do palco e se torna um grande cortejo ou interativo mesmo com a plateia chama bastante a atenção dos jovens,  porque eles não se tornam apenas um espectador ali, uma plateia, eles conseguem participar também interagindo com a história, com a narrativa, com os personagens”, contou.

Agradecimento final do elenco de beetlejuice na broadway
Foto do agradecimento dos atores da peça musical Beetlejuice, Broadway, 2022- Foto: Maitê Olyntho/Agenzia

A aura do ao vivo

No século 20, Walter Benjamin já afirmava que o avanço das tecnologias na área do audiovisual mudaria para sempre a forma como a arte é expressada. Para o filósofo, a arte possui uma presença única, original e, mais importante, irrepetível no tempo e no espaço. Esse conceito foi definido como a aura da arte.

Agradecimento final da peça "A Cor Púrpura"
Foto dos agradecimentos da peça musical “A Cor Púrpura”, Teatro Liberdade 2025. Autor: Maitê Olyntho

Décadas depois, é essa aura que ajuda a manter manifestações como o teatro e a ópera vivas. Em um cenário marcado por repetições e conteúdos reciclados, o valor das artes não está apenas na obra, mas na experiência proporcionada, na impermanência. Cada apresentação carrega uma novidade, ainda que o texto e a música se repitam. 

Pedro Guida, gestor de elenco do Theatro Municipal para óperas, comentou à AGenZIA sobre sua visão em relação ao histórico da ópera e sua modernização para atrair o público jovem: “A ópera, por ser uma arte que atravessa vários séculos e continua sendo criada, mudando de estilo e se renovando, facilita muito abordagens mais contemporâneas e a aproximação com temáticas e públicos mais jovens. Ela está sempre aí, às vezes não é a forma de expressão artística que movimenta mais mídia, mas é uma arte onipresente e em constante atualização”, afirmou.

Desafios no acesso às artes cênicas 

Apesar do interesse crescente nas artes presenciais, o acesso ao teatro e ópera ainda se apresenta como um grande desafio para a consolidação desse movimento entre a Gen Z, porque, mesmo abertos para esse tipo de experiência, ainda existem desafios para transformar o desejo em frequência.

Dados do relatório Understanding Opera’s New Audiences indicam que novos espectadores costumam sair satisfeitos do primeiro contato com o teatro e demonstram interesse em assistir outras obras. Porém, nem sempre a intenção é concretizada. O custo dos ingressos aparece como a principal barreira entre o público e os palcos.

Rodrigo Dourado, professor da UFPE e curador do PFFRec (Festival Recife do Teatro Nacional 2025) , comenta sobre as dificuldades socioeconômicas e diferenças entre o público jovem periférico e de classes elevadas que podem dificultar o acesso à espaços culturais. Além do custo elevado, também existem barreiras relacionadas com comunicação e locomoção para as grandes montagens, que são concentradas nas zonas nobres das cidades.  “Tem uma questão do acesso aos espaços culturais não só em termos de transporte, mas também do ponto de vista socioeconômico, se você pode pagar por ingresso.”

Nesse cenário, iniciativas que buscam democratizar o acesso ganham relevância. Um exemplo é a montagem de Hamlet, Sonhos que Virão, no Copan, em São Paulo, uma obra clássica de Shakespeare montada com o objetivo de dialogar com o público mais amplo e popular. Ao ocupar um espaço icônico na cidade, contar com o ator Gabriel Leone e adotar estratégias para trabalhar com o cotidiano urbano, a peça abre caminhos para um maior acesso e democratização da arte, tanto em questões financeiras, quanto em barreiras linguísticas e sociais.

Montagem da peça “Priscilla, a Rainha do Deserto”
Foto da peça musical “Priscilla, a Rainha do Deserto”, Teatro Bradesco, 2024. Foto: Maitê Olyntho/Agenzia

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Fontes:

“Understanding Opera’s New Audiences: Research Report”

OPERA AMERICA – Project Lead: Jenny Fornoff

https://www.operaamerica.org/media/tlhjy4b2/understanding-opera-s-new-audiences-research-report_revised-122025.pdf

“Attracting new audiences to high culture: an analysis of live broadcasted performing arts at cinema theaters”

https://link.springer.com/article/10.1007/s10824-023-09500-y#Fun

“Hábitos Culturais – 6ª edição”

https://s3.sa-east-1.amazonaws.com/prd.editor.fundacaoitau.org.br/public/otherfile/519/file/46de1383497888b5266c22b1630822fa.pdf

Realizada pelo Observatório Fundação Itaú com o apoio técnico do Datafolha

“The Demographics of the Broadway Audience 2023–2024” 

The Broadway League

https://pt.scribd.com/document/950552037/Broadway-audience-demographics-in-2023-2024

“Juventude e Práticas Artísticas e Culturais nas Metrópoles”

https://journals.openedition.org/cadernosaa/611

“Corações e Mentes: Um estudo acerca das possibilidades de relações dos jovens e o teatro”

Aline Cristiane Grisa UFRGS – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas

https://www.portalabrace.org/vcongresso/textos/pedagogia/Aline%20Cristiane%20Grisa%20-%20Coracoes%20e%20Mentes%20Um%20estudo%20acerca%20das%20possibilidades%20de%20relacoes%20dos%20jovens%20e%20o%20teatro.pdf

“OperARtistry: An AR-based Interactive Application to Assist the Learning of Chinese Traditional Opera (Xiqu) Makeup”

Zeyu Xiong, Shihan Fu e Mingming Fan – The Hong Kong University of Science and Technology (Guangzhou)

https://arxiv.org/pdf/2311.11269v1

“Digital Media Marketing for Dance: Enhancing Audience Engagement with Ballet Companies and Concert Dance Performance”

Alexandra Gagliano – University of Florida

https://www.researchgate.net/publication/346801666_Digital_Media_Marketing_for_Dance_Enhancing_Audience_Engagement_with_Ballet_Companies_and_Concert_Dance_Performance

“How COVID‑19 impacted cultural consumption: an explorative analysis of Gen Z’s digital museum experiences”

Department of Economics and Management “Marco Fanno” –  University of Padova

https://link.springer.com/article/10.1007/s43039-023-00071-6

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Elisa Nuñez

Estudante de Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero.