sexta-feira

10-abril-2026 Ano 2

Além do octógono: obstáculos enfrentados por atletas de MMA

Praticantes das artes marciais mistas enfrentam preconceito, instabilidade financeira e falta de reconhecimento, desafios que vão muito além do combate dentro do octógono
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Diversas pessoas treinando artes marciais em um grande espaço, com detalhes como lâmpadas vermelhas e um tatame cinza.
Praticantes de MMA treinando na Academia Coliseu Team
Foto: Augusto Zanin/Agenzia

“Quando eu decidi me tornar lutador profissional, não tive ninguém. Minha mãe me mandou arrumar emprego, e meu pai disse que não ia ganhar nada”, desabafa Marlon Brito, atleta profissional e professor na academia ChuteBoxe Embu das Artes. A trajetória de atletas inseridos nas artes marciais à margem da sociedade revela obstáculos que vão além da luta: falta de apoio familiar, instabilidade financeira e preconceito. Em uma modalidade ainda vista à margem da sociedade, ele precisou conciliar treinos intensos com trabalhos paralelos para se manter, apostando em uma carreira cujo retorno raramente é imediato.

A história de Marlon não é exceção. Na ChuteBoxe, dos mais de 300 praticantes, apenas 40 são profissionais — e, desses, 13 chegaram ao UFC. Em um cenário ainda marcado pelo julgamento alheio e por estruturas limitadas, as chances de ascensão são escassas, e o caminho até a estabilidade depende de resistência, talento e oportunidade.

Treinos e boletos: a luta financeira fora do octógono

Nos estágios iniciais, atletas de combate raramente conseguem se dedicar à carreira esportiva. A rotina exige o desdobramento entre empregos formais e treinos, dividindo o dia entre a jornada laboral, a preparação física e a recuperação. A sobrecarga impacta não apenas o desempenho esportivo, mas também a estabilidade financeira e a qualidade de vida. Períodos sem luta significam ausência de renda esportiva e períodos pós-luta podem afastar esses indivíduos temporariamente de outras fontes de renda. Seguir na modalidade demanda organização, disciplina e a capacidade de acreditar em um projeto de longo prazo, mesmo diante de retornos incertos.

Entre a necessidade de garantir renda e a busca por reconhecimento, esses competidores transitam por uma realidade marcada por limitações estruturais, e nem mesmo a profissionalização é garantia de lucro. O preparo para uma luta, conhecido como “camp”, pode durar meses e envolve uma série de custos que vão desde treinadores, equipamentos de qualidade, preparação física, alimentação específica, fisioterapia e até parceiros de treino. No Brasil, esse ciclo pode facilmente ultrapassar os 10 mil reais, valor que nem sempre é compensado pela bolsa recebida nas lutas. Em eventos menores, é comum que atletas recebam quantias insuficientes para cobrir os próprios gastos, transformando cada combate em um risco que vai além do físico. Com as artes marciais à margem da sociedade, subir no octógono muitas vezes significa investir mais do que se ganha.

Cabine de sauna portátil preta com detalhes em verde neon. No interior, há uma cadeira dobrável simples posicionada para uso.
Cabine para saunas utilizadas por lutadores de MMA em seus camps.
Foto: Lucas Bibian/Agenzia

O que mantém o MMA à margem do reconhecimento?

Apesar do crescimento das Artes Marciais Mistas nos últimos anos, a marginalização do esporte ainda é evidente, sobretudo na forma como é percebido e tratado socialmente fora dos grandes eventos. A modalidade segue associada à violência explícita, à falta de controle e à ausência de valor desportivo, visão construída por fatores culturais e pela forma como o espaço é frequentemente retratado. Muitos lutadores vivenciam o preconceito no dia-a-dia: “Todo lutador já sentiu isso na pele”, aponta Marlon Brito. “Ouvi vizinhas falarem de mim: ‘Toma cuidado quando for conversar com ele. Talvez… talvez não. Eu tenho mais controle de mim mesmo do que a pessoa que fala de mim”, completa Marlon. 

Nesse contexto, não é apenas a prática que é desvalorizada, mas principalmente quem a escolhe como profissão. “Chegava no trabalho todo machucado, com o olho roxo. Aí os caras falavam: ‘Pô, tá pagando pra apanhar’”, relata Manoel Manumito Sousa, peso-leve do UFC. A fala revela como, no cotidiano, a dedicação à luta ainda é frequentemente incompreendida, sendo vista não como profissão, mas como uma escolha irracional ou até autodestrutiva.

Mesmo com a discriminação e as críticas presentes, ainda existem aqueles com a resiliência necessária para superar esses obstáculos. Para Manumito, as barreiras que surgiam em sua trajetória foram os mesmos incentivos que o fizeram chegar ao mais alto escalão do MMA mundial. Resistir às adversidades traz mudanças positivas até para aqueles que não cogitam competir, fazendo do esporte uma ferramenta efetiva de desenvolvimento pessoal.

Visão geral do tatame de treino com a logomarca da academia Chute Boxe estampada no piso.
Tatame da academia ChuteBoxe Embu das Artes.
Foto: Pedro de Alencar/Agenzia.

O que as Artes Marciais representam para seus praticantes?

Os esportes de combate apresentam impactos significativos na vida de quem os pratica. Segundo levantamento publicado em artigo da RevistaFT, o exercício dessas modalidades pode contribuir para a redução da ansiedade, regulação emocional, autocontrole e combate à obesidade. Alunos da ChuteBoxe Embu das Artes e de diversas outras academias pelo País buscam as artes marciais como forma de tratamento para esses problemas.

Escadaria de madeira em que cada degrau possui uma faixa branca com palavras em preto, como "Chute Boxe", "Disciplina", "Dedicação" e "Superação", servindo como guia motivacional no ambiente.
Escadas da academia com palavras de motivação.
Foto: Pedro de Alencar/Agenzia.

O MMA não só transforma a vida das pessoas, como pode atribuir significado a elas, desmistificando a ideia de que a prática não apresenta uma perspectiva ou benefício a longo prazo. Foi o que aconteceu com Marlon Brito, que encontrou na luta um caminho depois da infância marcada pelo bullying. “Eu vi um filme quando era criança e falei: ‘Mano, eu quero aprender isso’ ”, relembra. Mesmo com as artes marciais à margem da sociedade, o hobby virou obsessão: “Passei a acreditar que poderia ser alguém na vida”.

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Antônio Mellario do Prado

Estudante de jornalismo da Faculdade Casper Líbero, apaixonado por esportes, política e comunicação.