quinta-feira

9-abril-2026 Ano 2

O papel do rap feminino no combate à violência contra a mulher

Por meio de músicas e posicionamentos públicos, as rappers têm democratizado o debate sobre misoginia e empoderamento feminino.
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No dia 8 de março, a rapper e empresária Ajulliacosta fez questão de abrir espaço no final de seu show no Cine Joia para convidar os artistas da cena do rap a se posicionarem sobre a crescente de casos de violência contra a mulher. E disparou: “Acho muito importante que homens estejam com a gente nessa luta também e que falem para o público deles, porque é esse público que, geralmente, são os abusadores”.

Em seu último álbum, Novo Testamento, a cantora Ajulliacosta tece críticas diretas a comportamentos misóginos. Na sua carreira, além de fazer críticas sociais abordando temáticas como o empoderamento feminino e vivência periférica em seu trabalho musical, ela busca fortalecer a autoestima de meninas e mulheres. Em entrevista exclusiva para a Agenzia, Jullia explica a maneira como suas letras impactam a vida das ouvintes e a importância da presença de mulheres na cena do hip-hop para combater a violência de gênero.

AJULLIACOSTA em seu novo álbum, Novo Testamento – Foto: Matheus Aguiar/ Divulgação

“Conheço várias mulheres no dia a dia, no processo, trabalhos e aí elas sempre me contam as histórias delas sobre o quanto a minha música foi importante. Então, essas trocas são importantes para eu entender também o quanto o meu trabalho impacta a vida das pessoas. Eu encaro que o rap foi criado para ser esse lugar de manifesto, de acolhimento, sabe?” 

A cantora ainda pontua que enquanto mulher é comum que ela e suas colegas da cena do trap e rap abordem suas vivências com a misoginia na música, e faz parte de seu trabalho evidenciá-las em um movimento que muito falou sobre homens durante toda a sua história. 

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) , em 2025 o número de casos de feminicídio triplicou quando comparado aos últimos cinco anos. Para Ajulliacosta, a cena musical masculina tem um papel fundamental para ampliar a discussão sobre a violência contra a mulher.

“Muitas das vezes, problemas que são causados pelos homens, são discutidos só por mulheres. (…) Eu sinto muita falta de homens que falem também sobre essa parte deles que está doente, é a partir daí que a misoginia cresce, sabe?”, contou.

A rapper também relembra como intersecções afetaram a sua entrada na indústria e levanta a necessidade de uma mudança dentro da estrutura: “O rap para além de sempre ter tido um discurso muito machista, ele tem uma estrutura completamente masculina. Acho que é importante ter mulheres filmando, mulheres ali na mesa de som, mulheres iluminando, mulheres contratando, para que a gente crie um ambiente interno para além de quem tá ali em cima do palco.”, propõe Jullia. “Se a gente só tiver mulheres no palco, muda. Mas eu acho que não é uma mudança tão efetiva quanto a gente ter mulheres no palco e na estrutura.”.

O rap e a misoginia: como se democratiza o debate?

A contradição histórica entre o espaço de acolhimento que deveria ser o hip-hop e a misoginia presente no movimento, se apresenta como consequência de uma sociedade intoxicada por ideias machistas. Para a socióloga e educadora Cleziane de Jesus, mesmo em um espaço que luta por igualdade, as questões de gênero ficaram por muito tempo alheias. Mulheres eram representadas de maneira pejorativa, em canções dos principais grupos de rap nos anos 90/2000, retratando a visão misógina geracional da sociedade. 

“Nesse primeiro momento do rap, os homens se criam com essa força. E aí eu reproduzo machismo, misoginia, papel de gênero e tá tudo certo”, afirma Cleziane. “Quando a mulher sai dessa posição de objeto e passa a ser também sujeito dentro desse movimento hip hop, ela vai questionar. Ela vai trazer agora nas músicas delas esse próprio machismo que é trabalhado por esses autores.” Segundo a socióloga, quanto mais as artistas mulheres falarem desses temas em suas músicas, mais a sociedade tomará consciência das tensões envolvidas e, em algum tempo, esse movimento vai gerar as mudanças que já são presentes.

Para Nerie Bento, jornalista e diretora de comunicação do Museu do Hip-Hop, as letras escritas por mulheres passaram por transformações em suas representações ao longo do tempo, mas sempre buscaram combater a violência de gênero: “Hoje a gente tem outros tipos de linguagem, de conversar sobre isso. Se pegar a linha do tempo, as mulheres estavam ali no rap muito permeadas por denunciar a violência. Hoje, a nova geração está muito por empoderar as mulheres para que elas sejam autônomas e consigam a partir disso sair das suas violências”. A jornalista também reforça a importância do público em ouvir as rappers que trabalham esses temas, pois são elas quem, majoritariamente,  retratam essas temáticas e promovem os debates.

Mulher em manifestação no dia 8 de março- Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Na visão de Cleziane, a presença das mulheres na cena do rap é essencial para democratizar o debate. A socióloga destaca artistas como Tasha e Tracie e Duquesa, que juntas somam mais de 4 milhões de ouvintes mensais no Spotify, como exemplos de mulheres que popularizaram as pautas sobre misoginia e empoderamento feminino, atualmente. Para a educadora, é a partir de obras como as delas que os assuntos, que por muitas vezes se reservam ao ambiente acadêmico e não alcançam outras esferas da sociedade, se ampliam:

“Porque às vezes, uma adolescente, não vai saber quem é Djamila Ribeiro. Elas não sabem nem quem é Bell Hooks. Mas elas conhecem alguns debates sobre gênero, sobre interseccionalidade que aparecem através dessas discussões (…). Mas, quando eu parto da música, ela consegue apontar facilmente e trazer outras cantoras que fazem a mesma discussão. Isso traz o debate para o cotidiano, o que é muito importante”, declara Cleziane.

Autores

  • Estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, com foco no desenvolvimento de pautas políticas e culturais voltadas à geração Z.

  • Raissa Oliveira da Silva

    Estudante de jornalismo e apaixonada por contar histórias reais para pessoas reais. Interesse em cultura, entretenimento e política.

  • Estudante de Jornalismo com interesse em pautas culturais e sociais, voltadas à geração Z. Busco contar histórias reais que conectem pessoas, dando visibilidade a diferentes vivências e expressões culturais.

  • Cecilia Garcia Baldez

    Estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Interessada em trazer a verdade factual à realidade universal, com foco na política, entretenimento e cultura.

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Luiza Claudino Evangelista de Jesus

Estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, com foco no desenvolvimento de pautas políticas e culturais voltadas à geração Z.