A Geração Z, também conhecida como ‘nativos digitais’ são aqueles nascidos a partir de 1995 e cresceram imersos na internet, e por isso a vêem como uma extensão de suas vidas. Com o avanço dessas tecnologias, esses jovens passaram a consumir esses recursos na maior parte do tempo, incluindo postagens sobre saúde mental.
Um estudo gerenciado pela empresa IA Pearl chegou à conclusão que 41% dos jovens confiam mais na IA do que em humanos como mentores. Nossos dias estão cada vez mais acelerados, e quanto mais rápido e mais interativo, mais tempo as pessoas passam em frente às telas. Plataformas baseadas em vídeos curtos surgem para simplificar conteúdos complexos ao apresentar listas rápidas de sintomas, o que facilita a identificação imediata do público.
Embora esses conteúdos nos ajudem a disseminar informações, também tem impulsionado a quantidade de autodiagnósticos. Essas ferramentas oferecem explicações instantâneas, mas nem sempre confiáveis, o que contribui para interpretações equivocadas e diagnósticos imprecisos.

O professor de Ética e Antropologia Digital da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Andrey Albuquerque, caracteriza esses jovens como “Uma geração que tem uma expectativa por tudo instantâneo, especialmente pelo prazer. Tudo tem que ter uma gratificação rápida. Se eu estou com fome, aperto um aplicativo e a comida chega. Se eu quero assistir alguma coisa, ligo o aparelho e o entretenimento está ali”. Tudo isso contribuí para com uma geração que não sabe lidar com frustrações e com o ato de esperar.
Em meio a esse cenário, torna-se conveniente priorizar respostas confortáveis e a ausência de conflitos, como diz a psicóloga Ilana Pinsky, “conversar com um robô é conveniente e confortável. Ele não se atrasa, não desvia do protocolo, não se ofende”, mas isso é o oposto do processo terapêutico.
O autodiagnóstico
Uma outra questão pertinente ao tema é a problemática do autodiagnóstico em si. Os psicólogos Lucas Deotti e Wesley Fagundes Reis relatam à Agenzia as suas perspectivas sobre o crescente número de diagnósticos feitos online sem a consulta de um especialista, fenômeno esse que foi percebido pelos próprios profissionais. “É muito comum hoje o paciente vir com diagnóstico pronto, e com linguajar especializado, com termos próprios da área aprendidos pela IA”, disse Deotti.
Uma das questões centrais é que a inteligência artificial não possui o raciocínio clínico necessário para efetuar corretamente um laudo de transtorno mental e muitas vezes as plataformas de IA acabam se enviesando pela opinião de quem as escreve. “A pessoa acessa a inteligência artificial com uma parcialidade muito grande, ou seja, com uma predefinição do que ela quer escutar e falando dela pela percepção dela. Portanto, a inteligência artificial irá responder a isso, e não no contexto clínico”, diz Wesley Fagundes Reis.
Deotti explica que essas respostas tendem a levar os cidadãos a se apegarem a um resultado que não têm embasamento e, em muitos casos, chegar com um pré-diagnóstico. “Hoje eu escuto muitos pacientes chegarem até mim com a pré-impressão de que “ficaram com TDAH”. É um transtorno que você tem ou não tem; não tem como você desenvolver TDAH”, afirma.
O impacto
Profissionais da saúde mental também vem discutindo o impacto que esses recursos estão causando à qualidade de vida dos indivíduos a longo prazo, pois o tratamento de questões de saúde mental requer acompanhamento médico correto, especializado e contínuo. Segundo um artigo da Santa Casa: A falta de tratamento aumenta o risco de comorbidades psiquiátricas, como ansiedade e transtornos de abuso de substâncias, contribui para problemas de saúde física, e impacta negativamente as relações sociais, causando isolamento e rupturas nos relacionamentos pessoais e profissionais.
Para Lucas Deotti, esse hábito não afeta somente o comportamento dos pacientes, como também a desvalorização da profissão, visto que se um paciente não se sente confortável em um atendimento, o profissional pode acabar sendo substituído por uma ferramenta automatizada. “Se você perguntar para a lA sobre você, ela vai trazer respostas que provavelmente já estavam intrínsecas a coisas que você havia dito, portanto não há análise. Hoje, eu utilizo dinâmicas comportamentais dentro do consultório que a lA não consegue fazer”, comenta;
Deotti explica que um processo terapêutico vai além da informação, e o paciente precisa se conectar com o especialista. “Da mesma forma que nós selecionamos amigos devemos selecionar profissionais e pessoas que devem saber da nossa vida.”, completa.
A IA auxiliou de forma significativa em etapas da produção deste conteúdo.
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