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9-abril-2026 Ano 2

Corpo de bailarina? O que esse padrão não te conta

Entenda como funciona a relação de transtornos alimentares e magreza extrema no ballet clássico e como isso afeta o cotidiano…
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Entenda como funciona a relação de transtornos alimentares e magreza extrema no ballet clássico e como isso afeta o cotidiano de bailarinos profissionais.

Por Julia Miranda, Maria Luiza Comitre, Sabrina Leonel, Victoria Monteiro e Yris Silva

Instrumento para a performance: o corpo

“Mas a barriga já está para dentro? Quantas vezes eu te digo isso por dia?” A fala de Abby Lee para Kenzie, uma bailarina de 7 anos, no reality show Dance Moms, pode parecer exagerada, mas definitivamente não é um caso isolado. Dentro do universo da dança, a presença de transtornos alimentares e magreza extrema é constante. Filmes como Cisne Negro e a série Flesh and Bone exploram diferentes histórias, mas são semelhantes no mesmo ponto. O ballet ainda está profundamente ligado à ideia de um corpo perfeito, muitas vezes à custa da saúde.

Isso acontece porque, no palco, o corpo é visto como instrumento de trabalho e avaliação. Sem efeitos especiais, o bailarino depende por completo de si, da técnica ao físico. “Quanto mais magra eu ficava, dentro do mundo da dança, mais elogio eu recebia”, comenta Renata Schneider, bailarina profissional, no programa This is UZ. Ela conta que chegou a adotar dietas extremas, baseadas em alimentos de baixa caloria. 

Reprodução – Sabrina Leonel/Agenzia

Esse padrão é histórico

A associação de dançarinas de balé com magreza não começou agora. Esse ideal surgiu de uma mistura de tradição histórica, estética artística e exigências físicas da própria dança. O corpo da bailarina passou a ser moldado por um ideal de leveza, delicadeza e quase “irrealidade”, como se fosse divino, quase sem peso. Isso tem relação direta com o tipo de personagem que o ballet romântico valoriza: figuras como sílfides e espíritos, que exigem um corpo visualmente leve para sustentar essa ilusão no palco.

No ballet clássico não havia roupas luxuosas e pesadas, pelo contrário, as roupas eram leves e curtas. Isso trazia todo o destaque para a expressão corporal da bailarina, e, consequentemente, seu físico. A magreza está associada a uma impressão de estrutura longilínea, à leveza e ao alcance do movimento.

Desde então, obras icônicas como O Lago dos Cisnes, A Bela Adormecida e O Quebra-Nozes surgiram reforçando as principais características da dança clássica nos dias de hoje: a idealização da hiperextensão dos joelhos, de um maior colo de pé para valorização estética da sapatilha de ponta, de pernas maiores, de peitos menores e de en dehors mais bonito. Elementos que, em sua maioria, são determinados pela genética, ainda assim,  incansavelmente buscados por bailarinas.

No Brasil, a maioria das escolas e companhias seguem a mesma lógica, com poucas adaptações para o corpo brasileiro, notoriamente diferente do europeu.

A boa notícia é: existe uma metodologia adaptada ao corpo latino, a técnica cubana. Diferente da didática russa focada no alongamento corporal, prioriza a agilidade e os giros, essa base encaixa melhor  corpos mais baixos e com maiores volumes de coxas. Infelizmente, não é tão difundido nas escolas brasileiras.

Transtornos alimentares e magreza extrema na dança

Essa exigência vem acarretando questões emocionais na saúde mental das dançarinas. Segundo o relato da Ana Fusquine, adolescente de 19 anos que pratica balé há mais de 15 anos na escola de dança Rita Camilo, de São Paulo, sua relação com a comida já estava afetada quando ela tinha 13 anos. Era época da pandemia da covid-19 e o gatilho da ansiedade era real. “Eu comecei a ter uma relação mais insegura e instável com a alimentação porque eu sempre me sentia culpada se eu estava comendo algo que não fosse uma fruta ou comida saudável” relata.

Com os anos, esse ideal começou a ser esperado em escolas e companhias de dança, criando a expectativa de que dançarinas tenham corpos magros. Para destacar as linhas corporais, algumas escolas chegam a associar o desempenho da bailarina com o seu corpo. 

Existe uma pressão externa para alcançar determinado peso, somada à competitividade e à constante exposição do corpo em espelhos e apresentações. Nesse contexto, cria-se um ambiente propício para a distorção da autoimagem e para uma relação não saudável com a comida.

O que é mais importante: a técnica ou o corpo?

Em entrevista à Agenzia, a professora e coreógrafa Gisleine Leite comenta que a exigência técnica em competições é mais valorizada que o corpo por si só. Aponta uma certa homogeneidade nos físicos das bailarinas nos festivais de dança, por isso, identifica que a seleção começa antes disso. “Essas meninas já são selecionadas e escolhidas lá atrás por terem o padrão físico ideal. Então nós, professores, acabamos investindo mais naqueles bailarinos que têm o padrão ideal e, consequentemente, trabalhando mais a técnica deles.” 

Ana Fusquine também comenta sobre essa relação nas competições, deixando claro que a técnica é mais importante, mas que o físico pode ser usado como critério de desempate. “Claro que uma pessoa que não tem técnica não vai ganhar de uma pessoa que tem mais técnica. Mas se as duas têm a mesma técnica e uma tem um físico melhor com certeza vai ganhar mais destaque”, diz a bailarina.

Em companhias profissionais, a técnica e o empenho pessoal da bailarina são fundamentais. O corpo necessita de cuidados, mas precisa acima de tudo estar saudável para suportar as extensas horas de ensaios e a força necessária para a realização dos movimentos.

Como a saúde mental é afetada?

Alguns fatores emocionais, como a ansiedade e o perfeccionismo, influenciam diretamente a vida das bailarinas. Em entrevista à Agenzia, a psicóloga Laila Pincelli descreve como esses elementos atuam entre a dança e a alimentação, já que na prática quanto mais rígida a pessoa é consigo mesma, maior o risco de desenvolver uma relação difícil com a comida e com o corpo. É uma tentativa, muitas vezes silenciosa, de lidar com sentimentos que ela ainda não consegue  nomear ou sustentar.

Reprodução – Sabrina Leonel/Agenzia

Quem só aprecia a arte, pode não perceber o que realmente se passa na cabeça de um bailarino. Os ambientes das danças criam uma atmosfera perfeita para a comparação e competição subentendida. “Quando entram comentários, comparações e elogios à magreza, é fácil começar a sentir que o seu valor está no seu corpo. E, para quem já é mais exigente consigo mesma, o controle da alimentação pode virar uma forma de tentar se sentir aceita”, afirma a psicóloga.

Comentários vindos de profissionais mais experientes ou até mesmo de professores influenciam ainda mais a persistência desses transtornos, já que, dessa forma, cria-se uma mentalidade de “estar fazendo a coisa certa”, e podem ser ainda mais prejudiciais. Segundo Laila, “as redes sociais influenciam pela repetição. Mas o professor toca em algo mais profundo: o vínculo, a validação”.

O resultado é a construção de um ambiente marcado pela autocobrança e pela comparação constante. É um cenário que exige atenção e atuação ativa de escolas e professores para ser transformado.

A importância dos professores para manter o ambiente saudável

A situação fica ainda mais complicada quando esses bailarinos passam a se comparar com profissionais das maiores companhias do mundo, que dedicaram sua vida inteira à formação técnica. A consequência é um sentimento recorrente de inadequação diante de um ideal de perfeição. Esses transtornos, além de atrapalharem a performance física do bailarino, também fazem com que a relação inicial de amor se perca na competição e na cobrança. Nesse cenário, o papel de profissionais como professores, coreógrafos e diretores, na tentativa de tornar o ambiente agradável é indispensável. 

“Eu acho que é trazer mesmo reflexões, é conversar com os bailarinos, é entender qual é o ponto deles. Então, eu acho que é trazer situações e até trazer casos de bailarinas que já passaram por isso para que isso não aconteça com as minhas”,  comenta a professora e psicóloga Gisleine Leite.

Ela também destaca a importância da mediação da professora em casos mais graves de alunas com transtornos alimentares; conta que já teve que entrar em contato com os responsáveis e dar orientações para encaminhamento médico. 

As consequências na indústria

A busca incansável por um ideal físico irreal cria barreiras que, muitas vezes, levam uma vida inteira para serem superadas. Essa cobrança não é um fardo carregado apenas pelas bailarinas, mas também pelas instituições e mestres que encontram-se diante de um paradoxo: ao perpetuar padrões de extrema magreza, colocam em risco a própria continuidade da arte, que depende do bem-estar físico e mental dos profissionais. A indústria gasta anos investindo na formação de artistas que podem ser descartados no auge da sua maturidade técnica por não se encaixarem no peso esperado. 

O destino de quem não se enquadra parece traçado antes mesmo do começo: se a bailarina não alcança o padrão estético esperado, a profissionalização torna-se mais difícil. Adaptar-se costuma vir acompanhado por desgaste mental, ou ainda, por transtornos psicológicos.

Avanços no combate aos transtornos alimentares dentro das companhias

Companhias renomadas e escolas conceituadas vêm adotando práticas que priorizam o bem-estar físico e mental dos bailarinos. Nutricionistas, psicólogos e preparadores físicos passaram a integrar o cotidiano das instituições, com o intuito de garantir a saúde física e psicológica dos bailarinos, combatendo cobrança tóxica, transtornos alimentares e magreza extrema.

Hoje, há um crescente incentivo ao fortalecimento físico adequado, em vez da busca por um padrão único e muitas vezes inalcançável. Relatos de profissionais que superaram esses desafios têm ganhado espaço, contribuindo para um ambiente mais aberto ao diálogo e à prevenção. 

A tradição prevalece, mas a arte se moderniza, caminhando para tornar seu ambiente mais acolhedor e saudável.

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