A plataforma de mídia social voltada para vídeos curtos TikTok faz sucesso entre o público mais jovem desde seu lançamento em 2017. O padrão da plataforma mudou os hábitos de uma geração inteira e desde o princípio percebe-se a proposta para seus usuários: o consumo de diversas informações e músicas em ritmo acelerado.
O nome TikTok faz referência ao som de “tique-taque” do relógio, remetendo à curta duração dos vídeos postados. Com a entrega rápida e o alto alcance, esta rede social tem auxiliado diversos artistas a atingirem um maior número de ouvintes devido a publicações dos trechos mais atrativos de suas composições, que viralizam e incentivam o público a escutar as músicas na íntegra. O aplicativo pode ser considerado uma “ponte” entre os artistas independentes e o Spotify. Com o aumento do consumo e da produção de conteúdo musical, a plataforma tem se transformado no maior “lançador de hits” e vitrine de artistas independentes nos últimos três anos, podendo acarretar mudanças na futura indústria musical.
Lançador de Hits
Em um relatório realizado em 2024 pelo TikTok ,juntamente com a Luminate (empresa líder mundial em dados e análises de entretenimento), relatou que 84% das músicas que ocuparam o Billboard Global 200 viralizaram primeiramente no TikTok. Hits como JetSki, lançada no fim de 2025, e Posso Até Não Te Dar Flores, de 2026, são exemplos de músicas que ocuparam o topo do Spotify Brasil por ganharem visualizações nas redes sociais. Com a fórmula “pronta”, artistas passaram a postar com frequência trechos de suas músicas na plataforma. Teresa Lopes não quis ficar de fora.
A artista independente iniciou a carreira gravando covers para o YouTube. Após a pandemia, a paulista Teresa Lopes decidiu expandir a sua arte para outras redes sociais, como o TikTok, para que mais gravadoras conhecessem o seu trabalho. Por ser uma plataforma com foco em vídeos curtos, totalmente diferente do YouTube, a cantora teve que adaptar suas composições para que atingisse um número significativo de público:
“Para viralizar no TikTok, decidi começar uma música com o refrão, sem a introdução, para de fato prender o ouvinte no primeiro momento”, relatou a artista em uma entrevista feita para Agenzia.
Além de lançar hits “atuais”, o TikTok também vem ressurgindo hits “antigos” que ganharam espaço na plataforma. Sucessos dos anos 1980 e 1990, como Robocop Gay, dos Mamonas Assassinas, e Menina Veneno, de Ritchie, estiveram presentes em “trends” viralizadas no aplicativo

A plataforma como vitrine de artistas
Hoje em dia, além de ser um lançador de hits, o TikTok se consolidou como uma vitrine para artistas brasileiros, possibilitando a grande visibilidade de novos talentos sem depender, inicialmente, dos meios tradicionais da indústria, como gravadoras e rádios.
A cantora Teresa Lopes, logo no início de sua carreira, gravou um clipe em que raspava o seu cabelo em uma das cenas. Testou no TikTok. “O vídeo bateu um milhão de visualizações, o que trouxe muito resultado no meu Spotify. O Spotify entende que quando tem mais gente chegando de maneira orgânica, sem ser por playlist, consequentemente entrega mais a sua música”, lembrou.
Transformações nas produções musicais
Nessa era dominada por vídeos de poucos segundos, consumo acelerado de conteúdo, e necessidade de obter informações cada vez mais rápido, a indústria musical brasileira está passando por uma transformação muito evidente: o encurtamento de tempo das músicas e a criação de sons padrões para viralizar rapidamente.
Dados publicados pela Música&Mercado apontam uma queda no tempo médio das faixas recentemente lançadas, indicando que a maioria delas tem duração de no máximo até 3 minutos, tempo esse que, se ultrapassado, tende a perder atenção dos ouvintes das gerações mais atuais. Em uma entrevista para Agenzia, o produtor musical Felipe Vassão vê as pessoas “indo direto” para o refrão ou para o verso. “A atenção do público está pulverizada em muitas outras ofertas. Logo, o mais direto que você possa ser vai ter mais impacto, ou seja, essa busca por mais impacto está fazendo as músicas ficarem mais curtas”, conta.
Mais do que música, os lançamentos dos dias de hoje refletem em estratégias de “vendas” e relação com o consumidor, na tentativa de sempre conquistá-lo para garantir espaço nas tendências do TikTok. O desejo pelo espaço em setores virais fez com que muitas das músicas que antes eram produzidas de maneira espontânea, contivessem sons estratégicos que se encaixassem em dancinhas e trends, prendendo a atenção dos ouvintes.
A indústria musical, dentre todo o cenário atual de mudanças recorrentes da forma de criar faixas, álbuns e outros, vem se posicionando de maneira cada vez mais lucrativa, buscando adequar os artistas e seus respectivos sons no padrão, ao invés do foco ser apenas do desenvolvimento do som em si.
“O que o TikTok está fazendo é terceirizar o trabalho de muitas gravadoras. Hoje em dia, elas não estão preocupadas se você tem um grande público, elas querem saber de números de likes e views, pois para as gravadoras aquilo é um certificado de sucesso, porém isso não se reflete em uma carreira sustentável, ninguém desenvolveu aquela carreira pela própria pessoa”, declara o músico Felipe.
Esse pensamento monetário e lucrativo relacionado à criação de músicas tende a ser um grande impulso para que essas tendências padronizadas continuem acontecendo.
O futuro da indústria musical
Há muitos que dizem que as músicas estão cada vez mais perdendo sua profundidade e sua originalidade em razão da influência de redes sociais. “Acredito que atualmente as pessoas não querem se envolver tanto. Elas não querem se magoar. Por que você vai investir em uma música que mexe com emoções mais complexas, se você só quer uma gratificação rápida?”, contou o músico e produtor musical entrevistado, Felipe Vassão.
Outra questão é uma possível padronização de trechos, e formas nas composições atuais, e como isso pode progredir futuramente. A sistematização de certas produções musicais se iniciou antes mesmo do surgimento das redes sociais, isso porque, segundo o profissional entrevistado, a padronização de músicas irá sempre existir quando artistas e gravadoras buscam uma aceitação mais rápida de seus produtos. Com o TikTok, isso pode ficar ainda mais recorrente nos próximos anos, já que diversos cantores sonham em conseguir uma visualização mais rápida.
“Existe diversidade, espaço e um público que está cansado do mesmo e quer ver composições diferentes”, afirmou Vassão. E ele vê esperanças quando mais artistas estão chegando para pedir que produzam discos mais vivos, mais acústicos, menos produzidos. “Querem se expressar de uma forma mais autêntica para o público.”
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