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4-abril-2026 Ano 2

O papel da cultura queer na consolidação da música eletrônica

Das pistas underground às periferias, a música eletrônica sempre foi abrigo e expressão, profundamente marcada pela cultura queer. No Brasil, essa herança se mistura ao funk e às vivências periféricas, criando uma cena diversa e em transformação. Compreender essa influência é entender também as disputas e reinvenções de pertencimento.
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Por Alice Nogueira, Amanda Mores, Higor Franco, João Pedro Maluli, Noah Castro e Victoria Ignez

Em seus primórdios, a música eletrônica contemporânea já se configurava como espaço de liberdade para corpos dissidentes. Mas hoje ela amplificou esse papel ao dialogar com produções da periferia e artistas que tensionam normas de gênero, sexualidade e classe. Mais do que um estilo musical, trata-se de um território simbólico em disputa.   

A estética da cena eletrônica brasileira, ao se fundir com o funk e a realidade das periferias urbanas, fez emergir artistas como Katy da Voz e as Abusadas. Travestis e periféricas, criadas nas vielas do Grajaú, na zona sul de São Paulo, articulam batidas eletrônicas intensas com narrativas que transitam entre deboche, sexualidade e afirmação identitária. Sua produção dialoga com subgêneros da eletrônica como techno e house, mas encontra no chamado “funk submundo” seu principal campo de experimentação. Esta é uma vertente marcada por atmosferas densas, timbres distorcidos e forte influência da cultura periférica paulista. 

A dupla Irmãs de Pau constrói uma estética igualmente provocadora, que combina funk submundo, eletrônica e performance. Elas mobilizam humor, agressividade e experimentação sonora como ferramentas políticas, criando faixas que rompem com estruturas convencionais e reforçam a presença LGBTQIA+ na cena. 

Na produção, nomes como Christopher Luz, Caio Prince e DJ Bassan evidenciam como a eletrônica já não é apenas influência, mas estrutura até mesmo no funk contemporâneo que faz parte do mainstream. O funk submundo, gênero conhecido por ser a vertente paulista do funk, reforça como a música eletrônica influencia o mainstream no Brasil. O uso de BPMs elevados, beats marcados e construção progressiva de tensão aproxima essas produções do techno, revelando um entrelaçamento cada vez mais evidente entre os gêneros. Em São Paulo, o funk submundo se consolida, assim, como um espaço de experimentação sonora e expressão periférica. 

Em uma metrópole marcada por desigualdades territoriais, coletivos independentes e circuitos alternativos têm desempenhado um papel central na ampliação do acesso e na diversificação dos públicos. “A cena eletrônica tem muito poder de ocupar a cidade, quando chega na periferia, fica mais diversa e interessante”, afirma a DJ e produtora Loren. “A cena fala muito sobre inclusão, mas ainda rolam exclusões. Não é totalmente inclusiva, mas tá em construção.” 

A música eletrônica contemporânea se afirma como um campo de disputa permanente. Ao mesmo tempo em que cria espaços de pertencimento para pessoas LGBTQIA+ e periféricas, também reflete as desigualdades estruturais que atravessam a sociedade. Entre a pista e a política, o som e o território, é nessa tensão que novos sentidos continuam sendo produzidos.  

A foto mostra a parte inferior de uma pessoa usando botas de salto alto com detalhes metálicos, em um palco iluminado por luzes roxas e vermelhas. Em volta do palco, várias pessoas observam e algumas levantam as mãos, enquanto uma pessoa segura uma câmera para registrar o momento. O ambiente tem um aspecto industrial, com janelas grandes ao fundo.
Cena de festa eletrônica na cidade de São Paulo / Foto: Emanuela Godoy / Agenzia

Diferentes formas da manifestação eletrônica 

No cenário internacional da música eletrônica, Sophie, uma mulher trans DJ, produtora e cantora, se consolida como uma figura central. Sua produção redefiniu os contornos do gênero ao explorar texturas artificiais, timbres plásticos e estruturas fragmentadas, estabelecendo uma sonoridade inovadora associada à PC Music e profundamente atravessada por questões de identidade. Sua influência não apenas permanece, como reverbera de forma decisiva em toda a cena atual. 

É nesse contexto que Charli xcx se destaca como a artista que conseguiu projetar essa estética para o mainstream. Embora sua trajetória com o hyperpop e a música eletrônica acompanhe toda a sua carreira, é a partir do lançamento e sucesso estrondoso de Brat, em 2024, que essa aproximação atinge um novo patamar de visibilidade. Ao incorporar elementos experimentais dentro de uma estrutura pop, Charli constrói uma ponte entre o underground e o grande público, tornando acessível uma sonoridade antes restrita a nichos. Sua relação criativa com Sophie reforça essa continuidade, quase como uma linhagem estética que atravessa a música contemporânea. 

A música eletrônica produzida por artistas ligados à cena queer teve papel relevante na renovação estética do pop contemporâneo, ao introduzir experimentação sonora e tensionar os limites entre mainstream e underground. Com o tempo, essas sonoridades, antes restritas a nichos, passaram a integrar produções de grande escala. Nesse sentido, o lançamento de Jump, do grupo feminino sul-coreano de K-pop Blackpink, exemplifica essa assimilação ao incorporar elementos da eletrônica contemporânea em uma estrutura pop comercial, evidenciando o crescimento do gênero no mainstream nos últimos anos. 

Outros nomes também tensionam e expandem essas fronteiras. Slayyyter opera a partir do exagero e da artificialidade como linguagem estética, enquanto FKA Twigs desenvolve uma abordagem mais sensorial, na qual corpo, imagem e som se entrelaçam. Já Arca radicaliza essa proposta ao trabalhar com composições fragmentadas e instáveis, diretamente conectadas a experiências trans e não normativas. Em outra direção, Oklou demonstra, por meio de suas produções, um lado mais intimista e pessoal da música eletrônica, trabalhando com dinâmicas de identidade e sensibilidade. Essa dimensão afetiva, ainda que expressa de formas distintas, também atravessa produções populares brasileiras, em que a repetição e a construção de atmosfera operam como elementos centrais da experiência sonora. 

O início da expressão eletrônica brasileira 

A atual cena eletrônica é fruto de uma rica história que começou décadas atrás. No caso brasileiro, foi em meados dos anos 1990 que a cidade de São Paulo testemunhou o surgimento de uma nova forma de expressão sonora e cultural. As primeiras gerações de DJs brasileiros impulsionavam o que se tornaria um dos movimentos mais significativos da América Latina na música eletrônica. Segundo o jornalista e pesquisador cultural Camilo Rocha, a rua Augusta foi o berço de espaços de relevância queer, intrinsecamente ligados ao gênero eletrônico. “A fila era caleidoscópica, um desfile de moda improvisado que ignorava as convenções da luz do dia […] transformando a calçada da Augusta no primeiro território livre de uma São Paulo que ainda aprendia a ser moderna”, escreveu em seu livro Bate Estaca. Clubes como Nation Club e Lov.e Club foram pilares dessa era reverenciados até hoje por diferentes gerações. 

A transição dos anos 1990 para os 2000 solidificou essa efervescência cultural. Uma linguagem própria era forjada, traduzindo o anseio de pertencimento de uma geração. A pista de dança se consolidava como espaço central de sociabilidade e expressão: “Se você pegar toda a história da cena da noite […] está intrinsecamente ligada à comunidade LGBTQIAP+. Era um espaço de segurança […] de você poder ser o que gostaria de ser”, destaca Rocha. 

Essa relação entre território, visibilidade e pertencimento se transforma ao longo do tempo. Rocha observa que “nos anos 1980, espaços queer tinham que ser meio escondidos, disfarçados”, enquanto, nos anos 1990, passam a se integrar de forma mais visível à vida urbana. Segundo ele, uma das principais diferenças em relação ao momento presente é a ampliação das formas de ocupação: hoje há “uma variedade grande de eventos voltados para nichos específicos dentro da comunidade queer”. Nesse processo, as festas eletrônicas independentes dos anos 2010, como Mamba Negra, Capslock e ODD, foram fundamentais para “reafirmar a ligação profunda entre cultura clubber e comunidade LGBTQIA+ e proporcionar espaços de expressão e convívio para novas gerações”. 

Na mesma década, a música eletrônica experimentou uma expansão significativa no Brasil. O público se familiarizou com o gênero, impulsionado por nomes como David Guetta e Steve Aoki, além de compilações como Summer Eletrohits. Segundo a jornalista Claudia Assef, autora de Todo DJ já sambou, esse movimento popularizou o gênero: “O Summer Eletrohits foi o grande cavalo de Troia da música eletrônica no Brasil […] transformando o ‘bate-estaca’ em algo familiar e popular.” 

A chegada de megafestivais também contribuiu para reposicionar o DJ como protagonista, sobretudo nos anos 2010. “O DJ deixou de ser a pessoa escondida na cabine para se tornar a estrela do palco”, observa Rocha, destacando novamente o papel de Guetta na aproximação entre eletrônico e pop. Esse processo ampliou o público, mas também provocou uma reação da cena underground, que voltou a ocupar festas de rua e galpões. 

Na atual década, o cenário passa por nova transformação. A ocupação de espaços segue como prática central, com coletivos como Mamba Negra, ODD e Gop Tun explorando galpões, ruas e praças. Essa dinâmica reforça a dimensão política, estética e cultural da cena. 

Mas esse processo ocorre sob tensão. Em entrevista exclusiva para a Agenzia, Rocha aponta que “foi tudo ficando mais difícil devido a uma série de processos, entre os quais a gentrificação, além da crescente dificuldade de obter alvarás e de políticas públicas que “entendem a cultura apenas como negócio para grandes operadores”. Ele também destaca o impacto da pandemia, que “foi decisiva para dispersar o movimento clubber dos anos 2010”, afetando carreiras, projetos e o próprio entusiasmo da cena, somado ao aumento dos custos de produção que inviabiliza eventos menores. 

Paralelamente, nas periferias, o funk se consolida como potência e passa a ocupar espaços centrais e grandes palcos, sendo cada vez mais reconhecido como uma vertente da música eletrônica no Brasil. Esse movimento amplia o alcance da cultura eletrônica ao mesmo tempo em que reafirma sua essência: um campo de disputa simbólica, onde estética, política e identidade permanecem em constante transformação. 

A origem da cultura club e sua expansão 

Nos obscuros da noite nova-iorquina dos anos 1960 e 1970, nasciam as “ballrooms”, que ofereciam às pessoas negras e latinas da comunidade LGBTQIAPN+ da época o sentimento de pertencimento e a liberdade de serem quem eram, algo que não encontravam fora das pistas de dança, ainda que temporariamente afastadas das preocupações e hostilidades do mundo externo. Na dança, na moda e na coletividade, encontravam formas de resistência e expressão diante dos perigos e preconceitos que marcavam aquele período. Como refúgio, as ballrooms transformaram esse cenário: em vez de buscar reconhecimento e pertencimento dentro das estruturas da época, as comunidades queer criaram sua própria forma de serem vistas ao organizar seus próprios eventos. Cada “house” (os locais desses encontros) reunia participantes que competiam em categorias diversas: dança, moda, performance e presença cênica. 

A música que acompanhava essas apresentações era marcada por repetições rítmicas e batidas futurísticas capazes de sustentar apresentações extensas – esse padrão musical se tornaria um elemento definidor da cultura club. A música eletrônica fornecia o eixo dessa experiência, já que sua estrutura rítmica criava continuidade entre diferentes apresentações e permitia que o ambiente se mantivesse em constante movimento. Décadas depois, essa lógica ainda influenciaria grande parte da música eletrônica contemporânea. 

Por meio das houses, a música eletrônica passou a se expandir para além desses espaços, atravessando cidades e ganhando novos significados conforme circulava por diferentes contextos sociais e culturais, inclusive no Brasil. À medida que se globalizava, suas estruturas eram apropriadas e ressignificadas em diferentes países, assumindo características locais.  

A permanência da cultura queer 

A música eletrônica não é compreendida apenas como um gênero musical, mas também como uma prática cultural atravessada por disputas, deslocamentos e formas de existência. Esta se locomoveu das ballrooms nova-iorquinas até circuitos brasileiros contemporâneos, a cultura queer não só participou desse processo como foi a principal responsável por moldar suas dinâmicas, seus espaços e suas possibilidades de expressão. Mesmo quando essas linguagens alcançam o mainstream, sua origem permanece inscrita nas estruturas que organizam a experiência sonora: na repetição, na construção de atmosfera, no corpo, na coletividade e no poder de ser. 

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Este conteúdo foi produzido integralmente por humanos, sem uso de IA em nenhuma etapa.

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